Cena

Meus três meses como mecânica na Decathlon

Publicado em 16/05/17

 

Por Rafaela Gimenes

Rio, maio de 2016. Rafaela, professora de português do segundo colégio mais antigo do Brasil, recebe a proposta de morar na Itália e, quiçá, casar com o homem que amava.

Novembro, 2016. Sem Rio, sem Itália, sem amor e sem emprego, Rafaela resolve finalizar o mestrado que abandonou; o da Universidade Federal Fluminense, que qualificou e desistiu. Estuda, passa, desta vez na Universidade Estadual de Londrina com seu orientador da graduação. Ele não aceita seu projeto. Nada seria aproveitado. Decide trabalhar. Com o quê? Bike.

Seria perfeito. A sua aceitação na Decathlon, pra surpresa dos pós-graduados, fez que a decisão fosse definitiva: não se matricula no mestrado.

Quando pensei em trabalhar com bike, só consegui pensar na Decathlon. Nela comprei minha primeira bombinha, minha primeira jersey, minha primeira bermuda de ciclismo. “Decathlon: esporte para todos, tudo para esporte”.

Admito que, acostumada ao Lattes acadêmico, não soube montar um currículo que me contemplasse com as participações frequentes em oficinas de bicicleta, em Critical Mass, como bike messenger e criadora e organizadora por três anos da World Naked Bike Ride do Rio. Tudo que eu havia feito por prazer, inclusive aquele Granfondo em Roma, contava agora como “experiência de trabalho”. O colete era meu.

Os primeiros dias foram um despejo de informações que só consegui processar semanas depois.

Desde saber os nomes das pessoas com quem trabalhava até quais bicicletas eram vendidas, suas diferenças, valores, formas de pagamento e os termos técnicos de uma multinacional.

Na prática, o meu maior desafio era regular marchas e alinhar rodas aceitavelmente. Freio a disco era o meu tabu. O que falar das bicicletas infantis? “Lego is so much easier”.

Logo nos primeiros dias, ainda lutando com o câmbio Caloi e com o direita/esquerda do alinhamento, vendi uma bicicleta de estrada para um cliente que tinha ido apenas comprar uma bola. Estava sozinha na seção, sem gerente ou colega de trabalho para me instruir. É importante salientar que na região a “speed” não é benquista. Em quase três meses de Decathlon, foram somente duas bicicletas de estrada. Todas vendidas por mim. Vale um coração aqui.

Lá você aprende a não ser tão exigente com uma bike de 600 reais. O aro não precisa ficar perfeito. As marchas não ficarão iguais ao seu Shimano 105. Aceita-se também que aquele homem olhando você não é por admiração, mas por duvidar que você saiba fazer algo que ele não sabe.

Consigo quantificar quantas mulheres compraram bicicleta na loja e quantas estavam acompanhadas por homens.

Em quase três meses, não vi uma única mulher indo comprar bike sozinha. Embora alguns casos sejam particulares: uma senhora acompanhada por seus filhos, que decidiu qual bike queria sem o consentimento de uma voz masculina; uma mulher, acompanhada por outra mulher, que comprou uma bike esportiva by herself, e uma garota e seu namorado que compraram duas bikes esportivas de mesmo modelo. Em todo caso, a regra era: mulher só compra bike com homem escolhendo por ela, seja de passeio, seja de esporte; quando um casal vai comprar bikes, o homem escolhe sempre a pior pra mulher, afinal, “mulher não pedala”.

Engana-se quem crê que trabalhar lá era só vender e regular bikes: eu ordenava o linear, os produtos, atualizava os preços, organizava liquidações, verificava estoque, fazia pedido, encomendava mercadoria, ad infinitum.

Comecei a me sentir sobrecarregada de funções. Dois colaboradores com atestado, apenas eu e meu chefe lidando com tudo. Meus horários, desde o início, mudavam semanalmente. Não conseguia alinhar vida pessoal, esporte e trabalho. Uma veia do meu olho estourou. Sábado, sozinha na seção, um evento de 200 ciclistas trazendo ainda mais movimento, sem horário pra almoçar, lidando com a organização do provador e a bagunça das crianças cujos pais creem que ali seja um parque de diversões gratuito, mais a venda de bikes e eu desabei.

Há três dias, me demiti.

Estar na Decathlon foi uma grande oportunidade. Não só fui a primeira mulher, vendedora e mecânica de bicicletas, mas também pude me conhecer e me surpreender comigo mesma. Foi uma superação diária como mulher estar ali encarando uma sociedade machista que duvida do nosso potencial.

Recordo-me ainda do senhor que, sentado a observar enquanto regulava uma bicicleta, aproximou-se e disse: “Não é comum uma mulher fazer essas coisas”. Outro questionou onde aprendi tudo aquilo. Já me fizeram, inclusive, narrar passo a passo pra terem certeza de que eu sabia o que estava fazendo. Nunca passei despercebida.

Agora, nesse futuro que é um grande talvez que eu prefiro viver a conjugar, continuo com a mesma certeza da entrevista de emprego:

– Como você se vê daqui a 4 anos?

– Pedalando.