Cena

Negócio de mina: Talita Noguchi e o Las Magrelas

Publicado em 27/01/17
Talita Noguchi na oficina do Las Magrelas

Talita Noguchi na oficina do Las Magrelas

O Las Magrelas – para os íntimos o Lasma – é um daqueles lugares com alma. É o bar e bicicletaria onde todo mundo é bem vindo e se se sente em casa. Um lugar bem peculiar pois ao mesmo tempo que incorpora o mais legítimo espírito da bicicletaria local e tradicional, é um espaço onde circulam pessoas e ideias nada tradicionais.

O Lasma já foi palco dos mais diversos eventos, palestras e debates. Desde reuniões de cicloativistas, exposições de fotografia, lançamento de equipe de ciclismo, festivais mensais de coletivo feminista, feiras, workshops, festas e happy hours, a lista do que já rolou no Lasma é infinita.

Foto: Gonzalo Cuellar

Foto: Gonzalo Cuellar

É ponto de encontro de ciclistas urbanos, grupos de treino e, porque não, referência para quem quer começar a pedalar e precisa de um apoio inicial. Não é a toa que sempre está cheio de gente e de novidades.

Uma das responsáveis por esse caldeirão é Talita Noguchi, sócia do Las Magrelas. Junto com o Rafael Chacon, mais conhecido como Rodo, eles criaram a bicicletaria que mora no coração de um monte de ciclistas.

Festa Desamélia

Festa Desamélia no Las Magrelas // Foto: Arquivo

Para mais uma das entrevistas com as minas empreendedoras no mundo da bike [veja as que já saíram aqui e aqui], conversamos com a Talita para conhecer um pouco mais da sua história, sua relação com a bicicleta e sobre como isso a levou a querer criar o Lasma.

 

Adriana: Talita, qual é a sua relação com a bike e como ela te influenciou para criar o Lasma? Porque ele surgiu, quais foram as referências que vocês usaram, as inspirações?

Talita: Começamos a conversar sobre o Lasma em 2011. Eu e o Rodo já trabalhávamos com bike, cada um em uma loja de bicicleta. Só que entendemos, naquela época, que aquelas lojas não se aproximavam do que imaginávamos que uma bicicletaria tinha que ser, e por isso não nos sentíamos confortáveis para trabalhar naquele setor, apesar de adorarmos bicicleta. Os modelos ou eram muito esportivos ou muito voltados para lazer, nada era voltado para o ciclista urbano, que era o meio que estávamos inseridos. Aí vimos que a gente conseguia fazer uma sociedade para abrir uma loja mais voltada para o ciclista urbano. Começamos a falar sobre isso em 2011 e o Lasma foi criado em 2013.

 

E por quê esse aspecto não esportivo ou de lazer? Por quê querer abrir uma bicicletaria diferente das que você conhecia?

Porque estávamos inseridos no cenário do ciclismo urbano. Ele é um cenário muito diferente, ele tem demandas diferentes, ele tem propostas diferentes, ele usa a bicicleta de um jeito diferente. E até recentemente a maioria das grandes bicicletarias não atendiam esse público, é uma coisa muito nova. Quando a gente trabalhava nessas lojas maiores, voltadas para um público mais esportivo ou de lazer, a gente conseguia ver que eles nem sempre sabiam quais eram as necessidades do ciclista urbano. Era tudo muito voltado para o MTB, para a estrada ou para o lazer. O ciclista urbano, ele não tinha esse atendimento. Acho que não tem dez anos o começo das lojas que atendem esse ciclista.

 

E da onde você e o Rodo se conhecem?

Eu e o Rodo nos conhecemos da Bicicletada, a gente se conhece do cicloativismo. 

Quando você começou a pedalar? De que modo essa sua conexão com a bike fez você querer abrir um negócio de bicicleta?

Comecei a pedalar acho que em 2007 ou 2008. Foi quando comecei a usar a bike no dia-a-dia. Dirigir é estressante e estava passando por problemas de saúde por conta do stress. Por isso comecei a ver alternativas para me locomover sem tanto stress. Fiquei apaixonada pela bicicleta e por conta disso comecei a aprender tudo sobre bicicleta e ela acabou se tornando uma parte muito importante da minha vida. A bicicleta é um instrumento muito sentimental, muito romântico, felizmente e infelizmente. Pois sendo muito sentimental e romântico às vezes esquecemos a parte crítica de tanta liberdade e tantos sentimentos bons que ela trás. A bicicleta entrou em todos os aspectos da minha vida e por conta disso foi muito rápido querer abrir uma bicicletaria e começar a viver disso.

Quais foram as referências que vocês usaram de outras bicicletarias para criar o Lasma?

Aqui no Brasil não tinha muita referência. Mesmo existindo modelos e outras bicicletarias, na época elas não tinham o tamanho que hoje tem. A gente olhou muito para lojas lá de fora, como a Velocult, a Look Mum No Hands, a Red Lantern. Tem várias coisas que rolam lá fora e que tinham mais a ver com a gente do que as coisas que estavam acontecendo aqui. A gente era do rolê da fixa, fixa urbana, e isso já é um cenário muito forte há um tempo lá fora. Observamos tudo isso e percebemos que era interessante entrar nesse mercado. E esses clientes vêm muitas vezes não só para consertar a bicicleta, eles demandam um espaço de permanência e convívio. São ciclistas urbanos e aqui não é só um ponto de resolver um problema da bike, é um espaço de permanência também.

Desde o início a ideia era criar um espaço para além da oficina?

Sim, sempre foi porque a gente veio do cicloativismo, do meio social que fala sobre bicicleta e ciclismo urbano e sabemos que isso se dá em muitos níveis sociais, isso é uma vivência mesmo. Então para a gente não fazia muito sentido ter só uma bicicletaria, sempre quisemos ter um espaço para permanência.

 

A oficina também é o local de gravação dos vídeos tutoriais do Chave Quinze

A oficina também é o local de gravação dos vídeos tutoriais do Chave Quinze, que Talita produz com Gabriela Kato

 

Vocês já mudaram bastante, primeiro pois mudaram de lugar [até 2015 o Las Magrelas ficava na Vila Madalena], mas acho que a cara da bicicletaria também foi mudando com o tempo, o que mostra que é um lugar vivo e que vai se alterando com o tempo. Qual é o foco do Lasma hoje?

A gente não está com uma programação tão específica pois somos um comércio, a gente tem que ir se adequando. Isso vem também com as movimentações do mercado, dos clientes. Nosso objetivo, há bastante tempo é chegar nos 5 anos, que é uma marca muito específica do comércio, quando os negócios começam a se estabelecer. Nosso foco hoje é isso, as mudanças vão ocorrendo porque a gente quer ser uma loja maior, com uma diversidade maior de produtos, atender melhor os clientes. Mas, para um negócio pequeno, isso é um passo a passo. Temos um caminho a ser feito até chegar em tudo o que queremos.

Como é ser mulher dona de um negócio, no caso, de uma bicicletaria?

Tem coisas boas e ruins. Não é incomum as pessoas acharem que eu não entendo de bicicleta, não é incomum as pessoas acharem que eu não pedalo. Assim como não é incomum tratarem o Rodo como se ele fosse um funcionário ou ele ser destratado por ele ser a pessoa que está atrás do balcão achando que eu sou a única dona. Mas, claro, tem coisas que acontecem unicamente por eu ser uma mulher. É que infelizmente a gente se acostuma e passa a não levar tanto em consideração. Mas tem uma diferença de tratamento, não se trata igualmente uma mulher e um homem, isso é um fato. E quando você mexe com partes técnicas, fica mais evidente. Não respeitam da mesma forma uma mulher e um homem quando estamos falando de mecânica. Não era incomum homens pararem para ver o que eu estava fazendo na oficina porque nunca tinham visto uma mulher mexer na bike.

Vocês tem uma preocupação específica em relação ao tratamento dos clientes e das clientes do Lasma? Há produtos ou serviços específicos para mulheres?

Uma preocupação que perpassa todo mundo dessa casa não está na diferenciação de serviços mas uma preocupação com atendimento. Desde que eu conheço o Rodo, vejo que ele está constante em busca de entender que sim, estamos em uma sociedade desigual que trata mulheres de uma forma diferente e dá para ver que ele é o cara que sempre vai tentar sanar isso dentro da atuação da nossa loja. O mesmo com o Akira – que trabalha aqui na cozinha – e o Fernando – que trabalha com o Rodo na oficina e é o mais novo aqui no Las Magrelas – que começam a perceber isso. O diferencial aqui, então, é o atendimento. Sabemos que não é incomum uma mulher ir a uma loja e, além dela se sentir enganada ou tratada de uma forma infantil, não é incomum ela ser assediada. Por isso é uma construção diária, de todas as pessoas que estão aqui dentro, entenderem o que é alteridade, o que são essas diferenças de gênero e como se busca fazer um atendimento que leve em conta essas questões de uma forma que tente agredir e violentar o mínimo possível. Então voltando a sua pergunta, não, não temos produtos ou serviços específicos, mas sim nos preocupamos com o atendimento da nossa cliente, que seja alinhado com o ambiente da casa. Isso tem a ver com ser um espaço em que uma das donas é mulher, que há muitas mulheres que frequentam. Tem que passar uma outra relação, um outro ar.

Posso dizer então que é quase um posicionamento, que abrange tudo e não apenas um ponto isolado dentro do que vocês oferecem?

É quase um posicionamento, que não é refletido por qualquer tipo de publicidade. É uma construção diária.

E porque não deixar essa mensagem mais clara?

Uma coisa que aprendi é que ainda estamos aprendendo aqui na loja e tem muita coisa que a gente não sabe. Queremos que o Las Magrelas seja uma empresa muito longa e duradoura, então não temos pressa para certas coisas, em especial coisas que são um processo de aprendizado. O machismo é estrutural e está em todo lugar, então por enquanto estamos entendendo como a gente faz tudo isso nessa casa. Enquanto não amadurecemos nisso, não queremos apresentar isso como um posicionamento “oficial”, ou um exemplo a ser seguido. Estamos nesse processo e acho que isso vai caminhar para um lugar muito legal. Essa loja que eu e o Rodo queremos que o Lasma seja, ela tem a parte das mulheres que não é uma parte com algumas jerseys e umas bikes rosas. Não, ela vai ser uma loja para todo mundo. Mas para isso tem uma caminhada e a gente tem cada vez mais noção disso.

+ INFOS

O Las Magrelas fica em São Paulo, na Rua Artur de Azevedo, 922. No site você encontra mais informações sobre os serviços e os horários de atendimento.

+ DICA!

Não deixe de conhecer o Chave Quinze. O blog contém tutoriais de mecânica de bicicleta, e é produzido pela Talita e pela Gabriela Kato.