Cena

Reflexões sobre ciclismo feminino: Pretty Damned Fast

Publicado em 24/11/16
Anna Maria e eu na porta do Sun and Air

Anna Maria e eu na porta do Sun and Air

Aprofundar no ciclismo feminino muitas vezes nos faz enfrentar uma pergunta crucial: O que é ciclismo feminino?

Pedalar uma bicicleta é uma ação que independe de gênero. Basta subir na bike, girar os pedais e rodar por aí. Pode ser uma volta na cidade, um treino de montanha, uma cicloviagem. Nossos corpos geram energia, que impulsiona a bicicleta. O movimento é o mesmo.

E para nós, mulheres que pedalam, ciclismo feminino não é algo que precisamos classificar. É algo que simplesmente fazemos. Somos mulheres e praticamos ciclismo. Voilá.

Mas ao mesmo tempo o termo, especialmente a versão em inglês “women’s cycling”, vem aparecendo mais e mais. Por isso a pergunta: existe ciclismo feminino como algo a ser diferenciado e promovido?

Essa mesma pergunta é feita por muitas mulheres que questionam se de fato é necessária a seção “feminina” em meio a publicações, produtos e serviços de ciclismo (e de tantos outros terrenos). Somos metade da população, não somos uma seção.

Acontece que esse raciocínio não considera um pequeno detalhe. Todo o discurso “neutro”, feito por pessoas, mídias, indústrias ou empresas não é realmente neutro. Ele carrega um direcionamento para nós tão normalizada, que nem dos damos conta. Mas são homens, falando para homens. Não tenha dúvidas, no mundo do ciclismo, vivemos em um mundo masculino.

Uma das mulheres que escancara esse questionamento é Anna Maria Diaz-Balard, fundadora do Pretty Damned Fast, um projeto voltado a difundir e incentivar o ciclismo entre mulheres. Baseada no Brooklin, em Nova York, Anna toca o projeto junto outras iniciativas. Ela e o marido Shawn tem duas bicicletarias, uma delas a recém inaugurada Sun and Air, em Williamsburg.

Foi na bicicletaria que encontrei com Anna para uma conversa sobre como se desenvolvem projetos de ciclismo feminino. Para mim, no fundo, estava atrás de entender um pouco mais o que eles significam conjuntamente. Coincidência ou não, “Does women’s cycling actually exist?” (Ciclismo feminino realmente existe?) foi título de um artigo que ela havia acabado de publicar em uma revista de ciclismo.

Pretty Damned Fast é um projeto que tem três anos, uma publicação online que surgiu a partir de um Tumblr pessoal. “Ciclismo feminino em todas as suas formas, especialmente quando feito com estilo”. É o que propõe o PDF, já sugerindo de cara que sim, parece que existe isso que chamamos de ciclismo feminino.

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Mas é justamente em sua publicação que encontro o que mais me chama atenção, ao menos nesse momento de desenvolvimento de meu próprio projeto, o Canela.

“Para mim, pessoalmente, a ação mais importante no ciclismo feminino era a mídia – abra uma publicação típica de ciclismo e conte as mulheres e a disparidade entre os gêneros se mostra quase que imediatamente. Mulheres não são parte da história visual do ciclismo e, quando presente, ficam restritas a imagens que, no mínimo, demonstram amadorismo e objetificação sexual e, quando muito, não se comparam ao conteúdo de mídia que celebra o ciclista masculino. Editoriais sólidos, ensaios fotográficos de alta produção, e imagens que conquistam o público normalmente não contam com mulheres ciclistas. Há oportunidades infinitas para aqueles que se prestem criar imagens incríveis de mulheres pedalando e recomendo intensamente àqueles interessados a capturarem o que realmente ocorre lá fora.”

Essas palavras caem como uma luva em tantos episódios que tenho visto e proponho extrapolar na interpretação. Ser uma mulher e querer se colocar em um terreno tipicamente masculino, não como alvo da foto (lugar em que tipicamente reinamos e onde não somos vistas como ameaças), mas como alguém que se coloca como uma mente pensante e uma voz feminina, é um desafio. E tantas vezes mal interpretado.

Há muito a que se fazer na promoção dos conceitos e das ideias, mas cada vez mais percebo que, a simples existência de um projeto feminino, a criação de um espaço de comunicação e um direcionamento proposital das palavras e do repertório de imagens são passos grandes em um território inexplorado.

Não é da noite para o dia que mudamos essa percepção, é o que Anna mais se preocupa em dizer. É um teste à vontade e à resistência. Depende de muito trabalho e de uma verdadeira rede de mulheres que queiram fazer uma mudança.

Mas vale a pena? “Keep going! Endure!”. Acho que sim!

 

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