Comece a pedalar

Olimpíadas: o mini-guia do ciclismo de pista!

Publicado em 21/07/16
Ilustra: Raquel Thomé // Texto: Adriana Vojvodic // Colaboração: Albert Pellegrini

Ilustração: Raquel Thomé // Texto: Adriana Vojvodic // Colaboração: Albert Pellegrini

QUANDO? De 11 a 16/08 (calendário das provas)

Assim como o ciclismo de estrada, o ciclismo de pista é uma das modalidades que estão nas Olimpíadas desde sua primeira edição moderna: 1896. Porém para mulheres a pista só esteve presente a partir das Olimpíadas de Seul, em 1988.

Ainda assim, mesmo com a inclusão não era possível falar em equidade no tratamento do esporte olímpico. Até as Olimpíadas de Beijing de 2008, as mulheres ainda não participavam da mesma quantidade de provas na pista. Apenas em Londres 2012 é que a quantidade e modalidades das provas de pista se igualaram.

Hoje são cinco eventos de ciclismo de pista, disputados por homens e mulheres. Eles acontecem ao longo de uma semana e são hipnotizantes: o velódromo, as bikes, a velocidade, a força das atletas e a tática de cada prova vão fazer você parar tudo e querer acompanhar cada minuto.

Por isso saber o que esperar de cada evento é essencial para tirar o máximo dessas olimpíadas!

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Foto: UCI

 

«« Atletas: perfil e modalidades

Pista é sinônimo de força. O pedal não para um minuto, as provas são explosivas e exigem muito em frações de segundo. O tempo é contado em milésimos de segundos (isso mesmo, 0,0001 segundos já definiram resultados de finais olímpicas como foi o caso da disputa entre Anna Meares e Victoria Pendleton em 2012) e por isso um erro sutil pode comprometer o trabalho de anos de preparação. É visível a ansiedade das atletas no início das provas, quando elas estão preparadas para disparar. Não é á toa!

Getty Megan Giglia (Great Britain Cycling Team) na final do Campeonato Mundial de Pista de 2015

Getty Megan Giglia (Inglaterra) na final do Campeonato Mundial de Pista de 2015 // Foto: UCI

São cinco tipos de provas de pista nas Olimpíadas:

«« Sprint por equipe

Na prova feminina, equipes de duas mulheres competem dando duas voltas no velódromo. Cada participante de cada equipe deve ficar na frente por uma volta inteira. Completando a volta, essa atleta sai e a que está atrás finaliza a corrida. Vence a equipe que fizer o menor tempo. No caso de empate, que é calculado no milésimo de segundo, a equipe com o menor tempo na ultima volta é declarada vencedora.

«« Keirin

O Keirin é disputado individualmente, com todas as competidoras partindo juntas atrás de uma moto, que progressivamente acelera. A prova feminina começa com a moto a 25 km/h que acelera até os 45 km/h. A moto sai da pista faltando duas voltas e meia para o final, quando as atletas sprintam para finalizar.

«« Sprint individual

A competição começa com um contrarrelógio de qualificação, que determina as 18 atletas mais rápidas. Com essa lista feita, começa a competição de duas em duas, as mais rápidas vs as mais lentas. A partir das quartas de final a competição é definida por com um melhor de três.

«« Perseguição por equipe

Equipes de quatro ciclistas largam em lados opostos do velódromo, em uma prova de 4.000m. O time vencedor é aquele que faz o menor tempo ou, na final, aquele que alcançar a equipe oponente.

«« Omnium

O Omnium é um conjunto de seis provas e é disputado em dois dias.

O resultado do Omnium é determinado pela somatória de pontos acumulados nas 5 primeiras provas. Na prova final, esse total pode aumentar ou diminuir, dependendo do numero de pontos ganhados ou perdidos nesse ultimo evento. Vence o Omnium quem tiver mais pontos ao final do sexto evento.

  1. Scratch: uma corrida disputada entre todas as participantes, por 10 km.
  2. Perseguição individual: distância de prova de 3.000m
  3. Eliminatória: uma corrida disputada entre todas as participantes, na qual a ultima a cruzar a linha a cada Sprint intermediário (a cada duas voltas) é eliminada
  4. Contrarelogio de 500m
  5. Flying lap: um contrarelogio que começa em movimento
  6. Prova de pontos: prova de longa distância, são 25km para mulheres. Vence quem tiver mais pontos, que podem ser acumulados nos sprints intermediários (a cada 10 voltas) e caso uma competidora dê uma volta no pelotão principal.

https://youtu.be/l0b6kHDZ55k

 

«« Bikes

A bicicleta usada no velódromo é chamada bicicleta de pista. Sua composição remonta à simplicidade do primórdio da bicicleta: um quadro e garfo, par de rodas com cubo de pinhão fixo, pedivela, corrente, guidão (pista ou “bullhorn” com clip, dependendo da prova), caixa de direção e movimento central. O mais importante e no que se gasta mais tempo é a escolha da relação entre o número de dentes da coroa e do pinhão. Isso é pessoal e determinante para um bom desempenho nas provas.

A bike que Evelyn Stevens usou para quebrar o record da hora, em 2016. Foto: Velonode

A bike que Evelyn Stevens usou para quebrar o record da hora, em 2016 // Foto: Velonode

Outro fator significante na bicicleta de pista é a aerodinâmica. Atualmente os quadros são constituídos por fibra de carbono com perfil aerodinâmico com um design super leve, sempre respeitando a proporção de 1:3 dos tubos, conforme previsto pela UCI.

O que não será encontrado numa bike de pista são os freios, câmbios e respectivos acionadores. A única parte móvel na bicicleta é a transmissão, incluindo pedivela, pedais, a coroa, um pinhão fixo no cubo sem roda-livre e a corrente.

Birdie O'donnel // Foto: Tim Bardsley-Smith

Birdie O’donnel // Foto: Tim Bardsley-Smith

Diferente do ciclismo de estrada, o uniforme na pista é composto por um macaquinho de manga longa, uma peça só bem colada ao corpo da atleta, sem bolsos traseiros, desenvolvidos para produzir o menor arrasto possível. Tudo ali é aerodinâmico.

A posição da ciclista na bicicleta possui extrema importância, considerando a aerodinâmica. A posição é bem similar a das bicicletas de estrada, mas mais aqui se dependente mais da geometria do quadro e qual é o guidão usado, pois a atleta não muda de posição durante as provas. O máximo de mudança que ocorrerá é largar em uma posição de pegada e já passar para a posição que irá permanecer até o final da prova.

Capacetes são todos aerodinâmicos em formato próximo ao de gota, sem aberturas de entrada de ar e com visor acoplado, dispensando o uso de óculos.

Birdie O'donnel // Foto: Tim Bardsley-Smith

Birdie O’donnel // Foto: Tim Bardsley-Smith

Os guidões “drop” de pista são usados para provas consideradas longas, mas a posição da ciclista é mais extrema se comparada com um ciclista de estrada. O guidão é mais baixo e o selim mais alto e mais pra frente. Os guidões ainda são menores e com drop mais longo.

Na perseguição e no contrarelogio é usado o clip preso num guidão de contrarelogio ou bullhorn, deixando os braços do ciclista mais próximos à frente do corpo e as costas horizontais ao chão, com o mínimo de área frontal, assim reduzindo o arrasto.

A força que se coloca no pedal é tão grande que, além do uso do pedal clip, é utilizada ainda uma fita firma-pé de couro, amarrando a sapatilha ao pedal. As forças empregadas nas provas de pista são tão absurdas que esse dispositivo se faz necessário, caso contrário a sapatilha se solta do pedal, podendo causar acidentes.

«« Rio: o velódromo

Ciclismo de pista é uma das modalidades mais tradicionais de competição de ciclismo. E uma das características marcantes do tradicionalismo desse esporte é a manutenção de algumas regras básicas para o desenho dos velódromos. Do final do século XIX até hoje, muitos materiais e técnicas de construção mudaram, mas o formato básico de um velódromo se mantém o mesmo: eles são ovais, com curvas de 180 graus nas duas extremidades, ligadas por pistas retas entre elas.

Foto UCI: Lee Valley VeloPark - London 2012 Olympic Games

Foto UCI: Lee Valley VeloPark – London 2012 Olympic Games

Os velódromos podem variar de tamanho, mas o padrão para competições internacionais é uma pista de 250 a 333,33 metros. Eles podem ser feitos de madeira ou concreto, mas o mais comum é o uso de madeira de pinha para os velódromos cobertos.

A UCI regulamenta o tamanho e características mínimas dos velódromos, que são definidos em Categorias. Para o Campeonato Mundial da UCI e para os Jogos Olímpicos, os velódromos devem atender às regulações da Categoria 1, que tem as regras mais rígidas, devido à alta velocidade que os ciclistas atingem. Nessa categoria a pista deve ter de 7 a 8m de largura e a inclinação das curvas devem respeitar os parâmetros estabelecidos, assim como as marcações das linhas da pista. É tudo milimetricamente planejado e nos velódromos mais modernos a temperatura e umidade do ar são controladas!

Velódromo do Rio de Janeiro. Foto: G1

Velódromo do Rio de Janeiro. Foto: G1

Toda essa regulamentação foi inclusive a razão para o velódromo construído no Rio de Janeiro para Jogos Pan-Americanos de 2007 ter sido desmontado para a construção de uma nova instalação: ele estava fora dos padrões previstos nas regras da UCI.

Centro de muita controvérsia, o velódromo do Rio ficou finalmente pronto e foi entregue ao Comitê Olímpico Internacional. O evento-teste que ocorreria em março deste ano foi adiado e ocorreu no dia 26 de junho.

«« Favoritas: o que não dá pra perder

Resultado de um alto investimento no ciclismo de pista, a equipe britânica vem conquistando espaço a cada olimpíada. Nos Jogos de Londres em 2012 as britânicas foram as grandes medalhistas, com o maior número de medalhas (4) e de ouros (3).

Em Londres o Sprint individual terminou do jeito que todos queriam ver: a final entre Anna Meares e Victoria Pendleton deu empate e teve que ser disputada novamente. É absolutamente emocionante:

https://www.youtube.com/watch?v=CkmmXSs-ooQ&feature=youtu.be

 

Aquela foi a última olimpíada de Victoria, que se aposentou do ciclismo e hoje é jockey. Para as Olimpíadas de Londres, ela fez uma grande campanha, e o documentário que mostra sua preparação para os jogos mostra os bastidores da vida de uma atleta de elite, a estrutura e rotina de treinos, e os sacrifícios que foram feitos para atingir os objetivos que ela se colocou.

Mas se Victoria já não compete, Anna Meares nos garante provas ultra competitivas. Ela estará de volta em 2016, e anda fazendo uma campanha intensa para sua participação, com vídeos que contam um pouco de sua história, incluindo o acidente que sofreu na pista em 2007, apenas alguns meses antes das Olimpíadas de Beijing, que resultou em um pescoço quebrado. Mesmo com esse pequeno obstáculo Anna voltou aos treinos imediatamente e foi medalhista em 2008.

Com a saída de Pendleton, Laura Trott é a grande promessa da equipe britânica. Ela é ciclista de pista e de estrada (foi campeã nacional de estrada) e vencedora do ouro em 2012 no Omnium e no Team Persuit.

Quer ver como acontece um campeonato de ciclismo de pista? Veja aqui como foram as provas no Campeonato Mundial de Pista da categoria Junior, que aconteceu mês passado.