Cena

O Red Hook Barcelona 2017

Publicado em 20/09/17

Erica correu pela equipe Favela Frama, no Red Hook Barcelona 2017 // Todas as fotos: Vinicius Martin

Erica Harumi é uma ciclista de São Paulo. Há pouco mais de um ano ela começou a levar esse negócio de ciclismo a sério. Vive no universo das fixas, só anda por aí com sua bike sem marchas. E treinando cada vez mais, começou a participar de competições. Seu primeiro criterium foi neste ano, quando ela participou do Daemon Track Crit. Bem posicionada em mais da metade da prova, uma queda tirou Erica da competição. Mas ficou o gostinho de quero mais.

Neste mês ela embarcou para Barcelona e participou da prova mais famosa e disputada no ciclismo-urbano-fixero-semfreio-badass, o Red Hook Crit. Representando o Brasil na equipe Favela Frama, ela é a primeira brasileira a participar de um Red Hook. Responsa? Super. E ela mandou ver! Sente só:

//////////// O RED HOOK BARCELONA 2017, por Erica Harumi

Viver um Red Hook pela primeira vez é quase indescritível. É diferente de todos os vídeos que a internet pode te mostrar e diferente de tudo o que você pode ler e ouvir. Pelo menos comigo foi assim. É difícil até resumir em palavras, mas vou tentar colocar em meia dúzia de parágrafos as 24h que antecederam e sucederam o que rolou na maior prova de circuito para bicicletas fixas sem freio do mundo. E, pra começar, vou usar das palavras da vencedora dessa edição, Ash Duban, em uma entrevista para o Fixed Gear Crit: “Competing with people that are better than me makes me step up and hold myself to their standards. Getting your ass kicked makes you better. If it demoralizes you to the point of not wanting to race again, you’re not cut out to win bike races.”

[Competir com pessoas que são melhores do que eu, me faz bancar o desafio e me colocar em outro patamar. Tomar na cabeça te faz melhor. Se te diminui a ponto de não querer mais correr, então você não foi feito para participar de provas]

//////////// AS COMPETIDORAS

Pra quem não conhece, Ash é uma das maiores critracers que o mundo respeita. Ela participou do primeiro Red Hook há 10 anos atrás, no Brooklyn, quando ainda não havia distinção entre as categorias feminina e masculina, conseguindo, ainda assim, se classificar para a corrida final. Esse ano, em Barcelona, ela levou primeiro lugar com uma chegada maravilhosa e inspiradora, merecidíssima por cada segundo na pista. O que Ash disse nessa entrevista, e o fato de estar há tanto tempo nessa estrada, só deixa mais claro o perfil de quem se mete a correr uma prova de alta velocidade, sem freio, em um circuito super técnico e um tanto perigoso: tem que ser forte. Muito forte.

E todos os dias que passei lá não me deixaram dúvidas de que elas são realmente fortes. Elas alinham já sabendo dos riscos, elas sentem a pressão da pista e o peso de carregar um uniforme. Ainda assim, elas colocam a cara no vento e correm. E elas correm porque gostam. O mais bonito de ver foi que, pra elas, tudo isso é muito divertido. Acima de uma competição, de uma série de corridas e de superação pessoal, o Red Hook também é um momento de encontros e reencontros, de fazer amigos, conhecer gente.

//////////// O QUALIFY

Com pouco mais de 50 inscritas, essa edição de Barcelona dividiu as competidoras em dois Heats de classificação. Cada Heat contava com cerca de 25 atletas que corriam para garantir uma boa posição na largada final. Como ainda somos poucas, em número, todas estariam automaticamente classificadas para correr a main race, independente do resultado nas classificatórias. Além disso, as melhores de cada Heat ainda correriam uma volta de tempo individual, o Super Pole, para definir as posições exatas de largada.

Eu caí no Heat 1 e, de acordo com o cronograma, deveria correr logo após as cinco classificatórias masculinas. Assim, tive bastante tempo pra ver os caras correr e também ouvir dos meninos as impressões sobre a pista. Minutos antes da minha bateria, o Kike e o Porto me deram as últimas dicas, me levaram pra aquecer e me deixaram mais tranquila. Alinhei na última fileira, o que serviu pra puxar assunto com as meninas ao meu lado. Nos minutos seguintes tudo o que tinha pra dar de errado, deu.

Ficar nervosa na primeira largada do primeiro Red Hook, pode sim. Demorar duas curvas pra clipar, pode acontecer também. A essa altura eu já seguia atrás com uma diferença de uns 300m do último grupo, mas seguia tentando. Acontece que essa distância aumentou mais ainda quando eu encarei a queda das duas ciclistas que ficaram coladas na grade. Nessa hora não adianta você falar que tem sangue frio, que já viu vídeo de queda. Nessa hora você vai reduzir, porque você nunca viu nada igual. Depois disso só restava tentar entender as cores das bandeiradas, que eram muitas, até que a corrida foi paralisada. O atendimento médico foi prestado e todas as competidoras voltaram para a linha de largada.

Fomos reorganizadas de acordo com a última volta, o que me colocou mais uma vez na última posição, dessa vez pelo menos eu tinha chance de me reagrupar. Consegui clipar com um pouco mais de facilidade e conectei no último pelotão, com mais quatro outras minas. A partir daí deu pra brincar, testar um pouco meus limites, entender a mecânica da prova, conhecer a pista e pegar os esquemas de ataque. Uma pena ter durado tão pouco, bandeira azul, eu e meu grupinho estávamos sendo lapeadas.

//////////// A MAIN RACE

Existe uma área de Warm Up, próximo da entrada da pista, com vários rolos a disposição dos atletas para o aquecimento. Antes de entrar para a corrida principal, consegui um rolo e fiquei lá. Na minha frente, a Sami Sauri. Do meu lado, a Juliet Elliott. Exatamente atrás de mim, a Ash Duban. Naquele momento eu só conseguia pensar: “puta que pariu, não tem nenhum outro lugar no mundo onde eu queria estar agora, isso aqui é do caralho”.

Para a corrida final, o resultado do Super Pole é considerado e eles anunciam bem alto o nome das primeiras colocadas, que devem ocupar as primeiras linhas, como se fosse um reality show. A essa hora o público já é grande, o sol já está se pondo e quase não dá mais pra ver a praia ao lado da pista. A largada é precedida por muito, muito barulho. Consegui clipar de primeira, avancei umas 20 competidoras logo na primeira volta e consegui subir algumas boas classificações. Ainda assim, falta muito pra chegar onde elas estão. E a cada volta eu ia perdendo colocação, até chegar novamente no último grupo e ser lapeada faltando ainda cerca de 20 voltas para a corrida acabar. A parada ali é muito séria, não tem ninguém de brincadeira.

O bom de acabar com a corrida cedo foi que ainda deu tempo de assistir a chegada. E que chegada! Faltando umas 4 ou 5 voltas pro fim, a Ash e a Ainara, que já seguiam destacadas do pelotão desde a primeira metade da corrida, quase se abraçaram no último hairpin, brigando ombro a ombro, literalmente, por uma curva mais fechada. Foi lindo demais de ver! Seguiram assim até o final, quando a Ash mandou um sprint violento em direção ao primeiro lugar, mostrando que além de liderar a prova inteira ainda tinha muita perna pra fazer bonito até o último segundo. Merecidíssimo. Que mulher!

/////////// AVALIANDO 

O Red Hook me dá vários motivos pra ser minha corrida preferida. Acontece nas cidades mais bonitas do mundo, reúne pessoas e atletas dos mais variados tipos, é rápido, agressivo e competitivo ao extremo. Do ponto de vista de uma mulher, é melhor ainda. O evento é democrático, vem crescendo e incentivando muita mina a entrar nesse meio. Como o próprio David Trimble, criador do evento, disse uma vez: “If you just present the races the same way equally you don’t even need to draw extra attention to the fact they are equal.” [Se você organiza provas iguais, você não precisa ficar chamando atenção para o fato de que elas são iguais]. As mulheres que correm, correm porque gostam, correm pra se superar, se testar e se auto-afirmar. Máximo respeito por elas.

Por fim, participar de um evento dessa estrutura me confirmou algo que eu já sabia desde o início: ainda falta muito pra gente chegar lá. O Brasil ainda precisa lutar muito pra ter mais eventos, mais corridas e mais visibilidade pra cena fixa. E eu não falo isso só na intenção de promover um calendário com mais corridas pra deixar meu final de semana mais divertido. Eu falo isso porque já tive a chance de pedalar com uma galera do Brasil inteiro, vi muita gente entrar e sair do rolê, mas poucos, muito poucos, indo atrás de algo mais sério. Não que todo mundo precise se envolver como eu me envolvi, mas que pelo menos esses poucos tenham aí uma motivação maior para se testar, pra evoluir e pra aprender.