Treino

O ABC do bike-fit

Publicado em 29/06/17

Por Adriana Vojvodic

Dores ao pedalar é uma reclamação recorrente e tem muita gente que acha que isso faz parte do ciclismo. Mas não é bem assim. Uma bicicleta perfeitamente ajustada para o seu corpo vai tirar o desconforto e permitir que você, finalmente, pedale sem dor.

Mas tirando aqueles ajustes mínimos que sabemos fazer na bicicleta (como a altura do selim por exemplo), como fazer esse ajuste fino no combo bike-corpo?

Para tirar algumas dúvidas, fui até o escritório da Specialized Brasil re-fazer o fit da minha bicicleta (sim, o fit se faz várias vezes, falaremos disso) e conversar com o Bruno Rosa. Especialista no tema, ele é um fitter certificado pela SBCU (Specialized Bicycles and Components University), o centro responsável pelos estudos para o desenvolvimento das bicicletas e componentes.

Dessa conversa saí com uma bike bem diferente da que havia entrado e com várias respostas importantes.

Bruno mostra onde fazemos o bike-fit.

O QUE É O BIKE-FIT

O bike-fit é um procedimento no qual um especialista, o fitter, ajuda o ciclista a encontrar a sua melhor posição na bike, por meio de medições e observações precisas.

Bike-fit não é o mesmo que o ajuste e a gente faz quando pega uma bike que nunca usou. Arrumar a altura do selim ou verificar a distância do guidão, se a bike está pedalável para nosso tamanho. Esse é o ajuste que fazemos quando pegamos uma bike emprestada, por exemplo. Ou a que um vendedor faz assim que compramos a bike.

Esse ajuste, quando bem feito, pode ser suficiente para usos menos intensos da bicicleta, para quem anda com menos frequência, com intensidades e distâncias menores.

Agora, se você treina ou vai começar a treinar, passar muitas horas fazendo força em posições que gerarão movimentos errados não apenas será desconfortável, mas poderá causar dores e lesões graves no seu corpo. Para que isso não aconteça é que se faz um bike-fit.

Como Bruno resume, o fit tem três funções:

#1 Segurança, evitando uma lesão

#2 Conforto, colocando a pessoa em uma posição neutra na bicicleta

#3 Eficiência, alinhando biomecanicamente a pessoa na bicicleta, permitindo que ela gere mais energia. Ou seja, melhora a performance.

 

 

COMO É FEITO O FIT

O fit é realizado usando-se ferramentas e sistemas de medição especialmente criadas para isso.

Apesar de todos os procedimentos serem realizados com uma técnica parecida, existem vários protocolos que poderão ser adotados. Eles variam conforme a marca ou sistema de fitting que se está adotando. Existe uma série de protocolos, desenvolvidos por médicos e mecânicos, que estabelecem o passo-a-passo que deve ser seguido para medir a pessoa e a bike, bem como as regras de mensuração e aplicação das medidas na bike. Cada marca ou especialista adota um protocolo para fazer o fit. No caso da Specialized, o protocolo foi desenvolvido internamente e é chamado de Body Geometry Fit.

Antigamente, antes dos protocolos, havia normas tradicionais de ajuste de bicicletas, essas regras que ouvimos por aí (como a de que a largura do guidão deve ser a largura do ombro da ciclista). Hoje, com técnicas e ferramentas muito mais precisas, algumas dessas regras já são consideradas mitos.

[E, cá para nós, regras “tradicionais” no ciclismo são normalmente criadas a partir de décadas de experiências e testes feitos em corpos masculinos, o que – especialmente no caso de questões fisiológicas – não devem ser lá tão adequadas para corpos femininos.]

 

 

Essa é a “bike” onde se faz o fit. Ela simula qualquer medida de bicicleta. 

 

QUEM FAZ O FIT

O fitter é uma pessoa treinada para fazer a bicicleta se encaixar da melhor forma possível ao seu corpo. O fitter faz isso levando em conta as medidas, as observações que faz de seu corpo, da forma como ele se movimenta, limitações, etc.

Eu ajusto a bike, não seu corpo. Por isso preciso entender como ele funciona e como ele deve ficar na bicicleta. De acordo com o nosso protocolo o corpo deve ficar na bike da forma mais neutra. O que isso significa? Se o seu corpo tem uma escoliose, por exemplo, não é na bike que eu vou corrigir essa característica. Por isso deixamos a pessoa o mais neutra possível. Como ela é fora da bike, ela será na bike.” explica Bruno.

 

ETAPAS: O QUE ESPERAR DE UM BIKE-FIT

Por conta desse entendimento, de que o corpo vai ditar as regras para alterações na bicicleta, o fit é dividido em três partes: primeiro, uma breve entrevista. Em seguida, uma avaliação do corpo. Depois, verificar como ele se comporta na bike, adaptando-a para o corpo da ciclista.

>> Avaliando o corpo

Nessa avaliação, feita pelo fitter, são verificadas várias características. Eventuais desalinhamentos da coluna, como lordoses ou escolioses, tamanho dos braços e pernas (é comum ter uma mínima diferença de tamanho entre eles), flexibilidade e limitações de movimentos nas articulações, e musculatura, alinhamento da coluna, pescoço, quadril.

Tudo isso é avaliado antes mesmo de irmos para a bike.

E nessa avaliação algumas medidas específicas são tomadas: a distância dos ísquios e o formato da arcada dos pés. Elas vão dizer muita coisa sobre como sua bike será ajustada.

Fit ou cirurgia??

 

>> Ísquios. São os ossos finais da bacia, os ossinhos que encostamos na cadeira (ou no selim) quando sentamos. O tamanho da distância entre eles é uma das medidas mais cruciais para realização de um bom fit, especialmente para mulheres (falaremos sobre isso mais para frente).

Ao fazer o fit, essa distância é medida. Sentamos nessa almofadinha, que marca os ossos:

Bundômetro, ou a almofadinha para medir os ísquios. Dá para ver os furinhos que marcam a posição dos meus ossos.

>> Arcada dos pés. Quando caminhamos, a arcada do pé (a parte que não encosta no chão) é forçada para baixo e encosta no chão. Isso é o movimento normal, que o pé faz ao andar.

Quando pedalamos, fazemos um movimento “artificial”, já que o pé não encosta por completo no pedal, apenas a parte da frente. Com isso a arcada do pé não é forçada da mesma maneira, não tem onde apoiar. Isso limita a eficiência da pedalada e pode até refletir em movimentos errados do joelho e quadril.

Pés com arcadas mais altas terão mais potencial de gerar essas consequências.

Conferindo a altura da arcada dos pés. No meu caso, arcadas altas.

 

>> Avaliando o movimento

Depois de tudo medido e avaliado, vamos para o teste na “bike”.

Com sensores que vão captar os movimentos dos pés, tornozelos, joelho, quadril, braços e mãos, é hora de subir na “bike” e começar a pedalar. A partir daí, pedalando, é que vamos passando por cada parte da bicicleta.

Sensores nas pernas para gravar os movimentos

>> Selim. Tudo começa verificando a altura do selim (vertical) e a sua distância em relação à caixa de direção (horizontal).

>> Pernas. Em seguida, passamos às pernas. Elas devem se mover de maneira “neutra”, ou seja, sem oscilar para dentro ou para fora. O movimento deve ser apenas para cima e para baixo.

>> Pés. As pernas são avaliadas em conjunto com os pés. O ajuste da sapatilha (grossura das palmilhas e posição dos taquinhos) vai determinar esse jogo no joelho. E você percebe o que milímetros podem fazer de diferença no movimento do corpo todo. É impressionante.

Terminada a parte inferior do corpo passamos à frente da bike: altura e distância da mesa, guidão e posição dos manetes.

Aqui a regra, além da posição neutra, é também o conforto. Isso significa que nesse ponto considera-se não só a posição mais correta, mas também a percepção de quem está pedalando. Quem está começando em uma bike de estrada, normalmente estranha a posição mais abaixada do guidão, preferindo sentar mais confortavelmente, com o tronco mais para cima. Conforme o tempo passa, é normal ir abaixando a frente da bike, deixando a mesa negativa e retirando os espaçadores. Quando mais abaixada a frente da bicicleta, mais “agressiva”, mais aerodinâmica a bike. Mas também menos confortável ela estará.

O fit finalizado gera um relatório. Nele estarão todas as medidas que você vai precisar para adequar uma bike ao meu corpo. Você poderá utilizar esse relatório para ajustar qualquer bike de estrada que for usar.

PERGUNTINHAS RÁPIDAS

>> Existe um “fit” feminino? 

Não, se com isso quisermos dizer que há uma regra geral para um corpo feminino. O fit é feito considerando as características individuais de cada corpo, independentemente do gênero. Ali o que importa são as medidas, as proporções e o movimento. Mas sim, há características mais frequentes em corpos femininos e outras mais frequentes em corpos masculinos.”

Geralmente mulheres tem pernas proporcionalmente mais longas e o torso mais curto. Isso impacta no alcance do guidão e dos manetes. Veja que a gente já falou sobre bikes femininas aqui.

 

>> Onde essa diferença vai gerar mais impacto no fit feminino?

No selim. E muita gente subestima as consequências disso na posição do corpo como um todo. Um selim desconfortável vai machucar não só as partes que tiverem em atrito, mas vai impactar na forma como você senta, na distribuição do seu peso no selim, na posição do quadril e, com isso, em todo o posicionamento do corpo na bike.”

Um selim muda tudo no fit e é a peça mais crucial para um resultado ótimo ou catastrófico na bike. É o que mais muda nos fits. Depois de um selim adequado é que passamos para as outras partes da bike, não é a toa que ele é o primeiro item que ajustamos.

Um selim originalmente criado para mulheres, este modelo vazado foi logo adotado também pelos homens. Ele alivia a pressão dos tecidos moles e permite uma melhor circulação do sangue, evitando aquela sensação de dormência que pode acontecer.

E também não é a toa que ultimamente tenha se falado tanto em selim e nas diversas dores que podemos sentir quando usamos um selim inadequado para o corpo. A equipe britânica de ciclismo fez estudos próprios que geraram alterações no tamanho e na posição do selim de seus atletas.

Mas para quem não faz parte de uma equipe de elite, o caminho para entender as tais das dores e evitar lesões não é tão fácil. Saddle Sore é uma leitura super esclarecedora sobre os vários tipos de machucados que podem surgir ao pedalar. Recentemente Emily Chappel, ciclista de ultra distância, escreveu essa matéria na revista Casquette sobre essas mesmas dores e uma atualização sobre o que há de mais recente no tema.

Então antes de mais nada: como está o seu selim?

 

>> O meu fit vai ser sempre igual?

Não! O corpo muda muito e com isso o fit vai mudando também. O indicado é fazer um fit por ano, para ir colocando a bike no formato que seu corpo demanda.”

 

>> Meu fit vai ser igual em todas as marcas e em todos os modelos de bike?

O fit que fazemos serve para qualquer marca dentro de um mesmo modelo de bike. Ou seja, cada pessoa tem um fit para bicicleta de estrada, um diferente para MTB (que vai ser diferente se for uma de CX ou de downhill por exemplo), um no BMX. Para bikes fixas, via de regra vale o mesmo fit da bike de estrada, já que a geometria do quadro é semelhante.”

 

VAI FAZER UM FIT? >>>> DICAS!

>> Vá com as roupas que você pedala.

>> Não treine no dia que for fazer o fit.

>> Leve sua bike limpa, pois o fitter vai mexer nela para colocá-la nas medidas corretas.

>> Pode ser que você tenha que trocar algumas peças: selim, guidão, mesa.

>> Vá aberta para mudanças. Mudar alguns centímetros pode ser estranho no início, mas vá de cabeça aberta para aceitar sugestões de mudança. Sair da zona de conforto pode ser intimidador, mas talvez te deixe mais rápida ou mais ágil na bike.

 

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