Cena

Negócio de mina: Rafaela Sotuyo e o Garupa

Publicado em 24/10/16
Durante participação do Garupa na Feira Gastronômica de Floripa, onde ofereceu reparos gratuitos nas bikes / Foto: André Righetto

Durante participação do Garupa na Feira Gastronômica de Floripa, onde ofereceu reparos gratuitos nas bikes / Foto: André Righetto

Rafaela Sotuyo é de Florianópolis, tem 28 anos e há dois criou o Garupa, uma bicicletaria daquelas que todo mundo adora. É um desses lugares com cara e alma, pontos de encontros e trocas que são muito mais do que empreendimentos, são um pedacinho da vida das pessoas.

Ela mesmo fala que o Garupa é um projeto dá orgulho, porque é sobre trabalhar com propósito. Então hoje trocamos algumas ideias com a Rafaela, que contou um pouco sobre o Garupa e sua relação com a bike.

Quando você se envolveu com a bicicleta e como ela te influenciou a criar o Garupa?

Com a ajuda do Bike Anjo Floripa comprei uma bike em 2012 e comecei a ir para o trabalho com ela. Na época não pensei no que isso representava, nem qual era o impacto da bicicleta na cidade, eu só queria pedalar. Aí logo na primeira semana com a bike participei de uma Bicicletada (nome da Massa Crítica de Florianópolis) e da instalação da ghost bike do José Lentz Neto, o que foi muito impactante e ao mesmo tempo motivador. Conheci várias pessoas envolvidas com o cicloativismo, passei a me envolver com o movimento e participar de ações que pediam por mais segurança no trânsito e defendiam o uso da bike como meio de transporte. A bicicleta virou causa e pedalar se tornou um ato poderoso e transformador. Depois disso não parei mais, além do cicloativismo, participei de grupos de pedal, ajudei a organizar eventos, viajei de bike, incentivei amigos a pedalar e comecei a trabalhar com isso. Então não dá mais para imaginar minha vida sem a bicicleta nem tudo que veio com ela.

E quando foi que o Garupa começou a ser planejado e da onde surgiu a ideia de criá-lo?

O Garupa existe há 2 anos e veio da nossa vontade de trabalhar com o que gostamos. Sou formada em design gráfico e estava cansada de projetos que não acreditava, queria usar meu conhecimento para algo que me motivasse, em paralelo a isso estava cada vez mais envolvida com o cicloativismo. O Giovani, que trabalhou como mecânico de bicicleta durante treze anos, estava afastado e queria voltar a trabalhar com isso. E a Marcella, formada em Ciência Biológicas, estava trabalhando em uma empresa de cicloturismo e fazendo uma pós em administração já com a ideia de abrir um negócio. O Garupa surgiu com a ideia de ser um espaço que, além de reunir ciclistas e servir como ponto de apoio, pudesse dar conteúdo e informações para que mais pessoas tenham autonomia pedalando por aí. É por isso que além de loja e oficina mecânica, o Garupa promove vários encontros, bate papos e cursos gratuitos sobre temas relacionados ao uso da bike (cicloturismo, trilhas, mecânica básica, cicloativismo, bicicletas fixas, cycle chic, etc.). Temos também um acervo de livros sobre o tema e sempre que podemos participamos de eventos externos oferecendo reparos gratuitos, workshops e consultoria para aqueles que querem começar a pedalar.

Os sócios do Garupa: Rafaela com Giovani Poletto e Marcela Olinto / Foto: Fabricio Sousa

Os sócios do Garupa: Rafaela com Giovani Poletto e Marcela Olinto / Foto: Fabricio Sousa

Como é a relação entre vocês, os sócios do Garupa? Vocês se dividem em funções pre-determinadas, como é a dinâmica entre vocês? 

Rola muito respeito pelo trabalho um do outro e todos têm voz nas decisões da empresa. Sabemos que ninguém aqui consegue executar todas as funções sozinho e por isso confiamos muito no conhecimento de cada um. No início, a ideia era que o Giovani cuidasse da mecânica, a Marcella da parte financeira e administrativa e eu da comunicação e dos eventos. Conforme fomos trabalhando, sentimos a necessidade de adaptar algumas coisas. A Marcella começou a ajudar na mecânica, ganhou experiência e hoje trabalha grande parte do tempo nisso. Para compensar, tive que assumir algumas funções administrativas e financeiras. Somos flexíveis e sabemos que nosso processo de trabalho está sempre em construção, isso faz muita diferença. Algumas outras funções são compartilhadas, como o atendimento, o controle do estoque, a limpeza e as horas extras nos eventos. Trabalhamos bem em equipe e existe disposição para ouvir ideias, opiniões e aprender com o outro.

A fachada do Garupa

A fachada do Garupa


Por ser uma bicicletaria, imagino que seus clientes sejam 100% ciclistas. Eles são mais homens ou mulheres?

A maioria dos nossos clientes são ciclistas, mas também recebemos muitas pessoas fora desse eixo da bike. Além dos eventos relacionados ao uso da bicicleta, temos uma parede destinada a exposições de arte dentro da oficina mecânica. Nesses eventos o público costuma ser bem variado, desde crianças até pessoas mais velhas, e a maioria não vem de bike. Temos também clientes que vêm até aqui apenas para comprar nossa cerveja artesanal. Nós adoramos essa troca, e a receptividade das pessoas a essa mistura de bike, oficina mecânica, cerveja e arte é muito positiva. Não saberia dizer se temos mais clientes homens ou mulheres, acho que é bem equilibrado.

Você desenvolve produtos ou serviços específicos para mulheres?

No dia-a-dia da loja não. Não existem serviços da mecânica exclusivo para mulheres. Também não diferenciamos isso nas bikes que montamos, “bike masculina” e “bike feminina”. Tem muita coisa no mercado com esse discurso, mas não é uma ideia que nós compramos. Ao mesmo tempo, existem duas minas dentro de uma oficina mecânica de bike, e isso não é algo comum (ainda). No meio de tanta discussão sobre empoderamento feminino, sentimos vontade de trazer essa conversa para dentro do Garupa. Em março deste ano criamos o “Bikes, Mulheres e Mecânica”, um encontro gratuito que recebeu mulheres para falar sobre o uso da bike, mecânica básica e trocar experiências com a intenção de incentivar mais minas a pedalar e fazer da bicicleta uma ferramenta de liberdade e empoderamento. Foram mais de 60 mulheres dentro do Garupa. Foi muito emocionante ver tanta mina interessada em aprender a se virar com a própria bike. O evento já teve duas edições e a ideia é seguir promovendo esses encontros.

Oficina mecânica do Garupa durante a primeira edição do "Bikes, Mulheres e Mecânica" // Foto: Nadine Martinez

Oficina mecânica do Garupa durante a primeira edição do “Bikes, Mulheres e Mecânica” / Foto: Nadine Martinez

Como é ser uma mulher dona de uma bicicletaria?

Acho que não é muito diferente do que é ser uma mulher dentro de qualquer outro contexto, tem machismo por todos os lados. Ser uma mulher dentro de um mercado majoritariamente masculino (esse cenário está mudando!) provoca alguns estranhamentos, mas a maioria das reações são positivas. É comum ouvir comentários tipo “vocês três são donos? E ela também arruma bicicletas? Que legal, que diferente!”. Uma coisa interessante é poder escolher o tipo de marca ou produto que vou trabalhar e o tipo de discurso que quero apoiar ou não. Sem contar o fato de poder promover eventos como o “Bikes, Mulheres e Mecânica”.

Você teve alguma surpresa ao abrir seu negócio por ser uma mulher? Especialmente em relação às reações ou tratamento recebido de clientes ou fornecedores? Você sente diferença de tratamento em relação a você (ou sua sócia) e seu sócio?

Nesses dois anos rolaram algumas situações chatas com clientes e fornecedores. Já teve cliente que desconfiou quando percebeu que era uma mulher que ia mexer na bike dele, outros (homens e mulheres) foram diretamente falar com o Giovani por julgar que ele era a única pessoa que entenderia o problema e poderia solucionar alguma coisa. Mesmo muito chatas, não são situações corriqueiras. Eu diria que dá pra contar nos dedos de uma mão as vezes que algo assim aconteceu por aqui.

Com a sócia Marcella Olinto durante a segunda edição do "Bikes, Mulheres e Mecânica" / Foto: Nadine Martinez

Rafaela e Marcella durante a segunda edição do “Bikes, Mulheres e Mecânica” / Foto: Nadine Martinez

Há bicicletarias ou outros negócios de bikes que você admira ou tem como inspiração?

Sim! Tem muita coisa nova surgindo, vários lugares com propostas diferentes que desconstroem a ideia que se tem de uma loja de bicicleta ou de uma oficina mecânica. É comum ver a cultura da bike combinada com cafés, bares, espaços de arte e música. Admiro o trabalho feito pelo Las Magrelas de São Paulo, foi nossa maior referência. Em São Paulo, tem também o Aro 27 e a Ciclo Urbano. A bicicletaria Cultural, de Curitiba, também nos inspirou bastante. Em Porto Alegre, acompanho o trabalho feito pelas gurias da Vulp e da Vila Velô. Gosto também da proposta do Úrbici, de Fortaleza. Sem contar várias iniciativas nacionais com produtos para ciclistas: quadros, caps, roupas, cafés, firma pés, alforges, mochilas. Tem muita coisa boa acontecendo nesse cenário.

Para conhecer o Garupa (e suas cervejas artesanais!) veja aqui.