Cena

Negócio de mina: Camila Romano e o KOF

Publicado em 13/10/16
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Camila Romano e o KOF

Ciclismo não é só treino. Ciclismo é também uma comunidade e, como tal, tem seus pontos de encontro. Em São Paulo um dos mais gostosos desses pontos é o King of the Fork, mais conhecido como KOF, o bike-café mais querido de Pinheiros. E ele é comandado pela Camila Romano que, junto com seu sócio Paulo Filho, criaram a melhor combinação que pode existir: fazer das suas paixões o seu trabalho.

A gente conversou com a Camila, que arrasa por aí na sua bike, para conhecer um pouco do KOF e o que significa ser dona de um negócio. Nesse caso, um negócio com alma e que pedala 🙂

KOF na inauguração em junho de 2014

KOF na inauguração em junho de 2014

 

Adriana: Cami, qual é a sua relação com a bike e como ela te influenciou para criar o KOF? Porque ele surgiu, quais foram as referências que vocês usaram, as inspirações?

Camila: Inauguramos o KOF em junho de 2014. Ele surgiu porque eu e o Paulinho éramos amigos de pedal, que eu conheci no pedal de segunda-feira a noite aqui em São Paulo. Não conhecia ninguém, mas um dia apareci e perguntei se podia pedalar com eles, era uma galera da fixa, que era da Tag and Juice. Eu não conhecia ninguém em São Paulo, sou de Ribeirão Preto e morei sete anos em Londres antes de vir para cá. Era só eu de menina pedalando e eu me divertia, adorava, era meu passeio de segunda-feira. Comecei a fazer amizades com os meninos, a gente saía para beber de vez em quando e foi lá que fiquei amiga do Paulo. Nessa época eu trabalhava em um escritório de arquitetura, não curti muito então acabei saindo. Foi numa das nossas conversas que ele disse que estava querendo sair da produtora em que trabalhava e fazer alguma coisa com bike, um bike-café, ou um café. E eu achei super legal porque eu frequentava, quando estava em Londres, o Look Mum No Hands, era um lugar que eu adorava ir. E em 2009 também em Londres abriu um bike-café, o Lock 7, bem perto da onde eu morava e a dona era uma menina loirinha com duas trancinhas e que consertava as bicicletas, e eu achei aquilo incrível! Então quando o Paulinho me falou isso eu achei o máximo e comecei a mandar as referências que eu tinha, nem pensando em me envolver, mas para compartilhar mesmo o que eu tinha visto por lá. E um dia ele falou que precisava de um sócio. E começamos a conversar sobre isso, começamos a criar o café.

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Lock 7, a bicicletaria inspiração da Camila

 

E o conceito do KOF, que cara vocês queriam dar ao lugar?

A ideia era realmente juntar essas duas coisas que fazem parte da nossa vida. Não é bem uma ideia nova, essa junção é um clássico, um ponto de encontro de ciclistas. Somos amigos do Pablo Gallardo, da Juice, então já havia um lugar de encontro, todos os nossos amigos já frequentavam. Nossa tarefa foi só abrir o lugar! Mas além disso, bem ou mal um bike-café tem tudo a ver com a nossa vida. Em Londres, que eu morei por 7 anos eu usei a bike para tudo, foi lá que a bicicleta entrou na vida do dia-a-dia mesmo, foi lá que eu comprei a minha primeira bike. Essas placas que estão aqui na parede foram presente do cara que me vendeu a minha primeira bike em Londres, o Simon, que mandou para a gente essas placas quando abrimos o café. Todo dia eu chego aqui de bike, esse lugar não podia ser mais verdadeiro que isso. É nossa vida mesmo. Por isso que é fácil para a gente manter o conceito daqui. Porque é exatamente o que somos. Vendemos o que consumimos, tudo o que temos aqui nós acreditamos.

Camila e sua bike lá em Londres

Camila e sua bike lá em Londres

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Treino na ciclovia da Marginal Pinheiros

 

Quem vem no KOF? É mais ciclista?

Não. É super equilibrado, para a nossa surpresa. Com esse tema achamos que iríamos atrair somente ciclistas. Na verdade quem vem aqui são os locais do bairro mesmo. Eles vem atrás do café, é gente que está atrás de cafés bons para consumir, e mesmo aqueles que não são da bike vem porque sabem que aqui é um lugar simpatizante para ciclistas. Quer conversar sobre ciclismo, quer falar sobre bicicleta. Então é bem equilibrado o público de ciclistas que são da turma, ciclistas que estão passando e vêem que é um lugar que ele será bem-vindo e de não ciclistas, que moram ou trabalham na região.

 

Vocês vendem alguns produtos próprios e acessórios de bike. Como é essa relação da lojinha de produtos de bike com o café?

De produtos próprios temos a camisa de ciclismo e a caneca. Tem também o cap que está em produção e logo logo já está aqui na loja. Tivemos uma surpresa boa com a Jersey, fez muito sucesso, todo mundo quer. Não temos isso como foco, mas é uma parte da nossa marca, que está crescendo. Aqui na loja também temos alguns produtos a venda, mas tomamos muito cuidado com o que colocamos aqui, não queremos uma quantidade enorme de produtos, preferimos colocar coisas que nós mesmos gostamos e usamos. Nós não temos oficina, então não vamos vender componentes ou peças. Então para vendemos os acessórios temos que fazer uma seleção legal, daquilo que gostamos e que achamos que faz sentido para quem vem aqui no café.

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As placas que Simon mandou para o KOF

 

Como é ser mulher dona de um negócio? Isso é uma questão no seu dia-a-dia aqui no KOF? Em que momentos na sua atividade aqui do KOF ser mulher é algo que levanta uma questão?

Isso é sim uma questão acho que é uma questão com qualquer mulher dona de um negócio que você for conversar. É muito louco como as pessoas não esperam que uma mulher seja dona de um lugar como esse. Várias pessoas perguntam “o dono está aqui?” eu falo sim, sou eu pode falar. E várias coisas que vão perguntar sobre bike, não direcionam a pergunta a mim, procuram o Paulinho ou qualquer outro homem que tiver ao redor para perguntar. O bom é que a minha personalidade sempre foi assim, direta, mas eu tive que insistir bastante, você tem que se posicionar muito porque é muito fácil alguém te desrespeitar. E acontece de eu não ser tratada com o mesmo respeito com que tratam o Paulo, que é meu sócio. Já teve vez de literalmente virarem as costas para mim e falarem exclusivamente com ele. Ou, se sabem que somos sócios, imediatamente imaginam que é ele quem pedala. Se no meu lugar tivéssemos uma mulher com uma personalidade mais quieta, mais reservada, seria bem difícil, seria atropelada. É que eu sou muito turrona mesmo!

 

Você imaginava que isso seria assim, teve uma escolha de posicionamento para lidar com isso ou foi algo que te pegou de surpresa? Como foi lidando com essas situações?

Nunca, nunca nem tinha parado para pensar nisso. Hoje eu sei como é, no começo ficava mais chocada, mas olhando para todos os negócios de amigas que estão fazendo coisas por aí eu vejo que são as mulheres que estão arrasando. Eu vejo uma iniciativa e uma força muito grande das mulheres fazendo e acontecendo mesmo, é um posicionamento de ver algo e agir, não ficar quieta, e isso é muito importante para qualquer negócio. Você tem que ter iniciativa todos os dias, se você se acomodar com o que está acontecendo ou se você não se posicionar não funciona. Eu acho importante que sempre fique bem claro que aqui tem uma mulher que é dona do lugar, porque a maioria das pessoas já presume que não, que uma mulher nunca seria dona de um café assim, talvez por ser um lugar ligado à bike, porque não tem nada de decoração muito fru-fru, é um lugar mais sóbrio, com parede escura então não tem uma mulher no comando.

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Cami e sua Peugeot

 

O que vem por aí no KOF? Vocês tem ideias novas para implementar no futuro?

Antes de expandir ou mudar alguma coisa, é melhorar e aprimorar o que temos. Agora estamos com planos de focar bastante nos ciclistas, ter um lugar reservado para ciclistas. Temos aqui um projetor, que usamos em dias que tem provas de ciclismo passando, mas ainda não tínhamos preparado um espaço só para isso e às vezes ficava um pouco confuso aqui. Então decidimos que queremos valorizar esses encontros, essas ocasiões. Por isso estamos preparando uma pequena mudança aqui, para conseguir fazer um espaço reservado para isso quando for dia de prova ou de eventos. Fizemos essa escolha e somos um bike-café por isso! Optamos desde o início em não ter uma oficina, para podermos nos dedicar com mais profundidade no que mais gostamos, que é a parte gastronômica do bike-café. O ciclismo é o tema, a inspiração e o público. Mas temos o ciclismo que é o que inspira e que faz o ambiente. Por isso essa escolha em valorizar mais o espaço do ciclista aqui no café.

Para conhecer o KOF: VEJA AQUI.

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