Cena

Mulheres, competição e rivalidade

Publicado em 02/06/16

Dei play em mais um vídeo de mulheres bonitas agressivando no Red Hook Crit e o tom era exatamente como imaginava: lindas, atléticas e agressivas, mas na dose certa. Se houvesse um pouquinho de suor ou uma cara feia – como nessa galeria do Pretty Damn Fast – e elas se tornariam agressivas demais. Cabelos presos e caps meticulosamente posicionados, tudo ali é casualmente deliberado.

Apenas um vídeo a mais. Muito bem produzido, diga-se. E ver essas mulheres pedalando é de fato bonito e inspirador. Mas quantos outros vídeos assim você já não viu? Same old story.

Só que não é apenas isso. Apesar da linguagem utilizada ser claramente voltada ao público masculino, ou ao menos a fórmula tradicionalmente usada para falar com o público masculino, a temática proposta é outra. E esbarra em diversas questões ligadas à relação da mulher com o esporte.

RHC 2016 // foto de Cole Wilson @ Pretty Damn Fast

RHC 2016 // foto de Cole Wilson @ Pretty Damn Fast

Nesse contexto é que você ouve a Sammi Runnels dizendo “você tem que deixar essa competitividade na prova e acolher todas as competidoras, porque queremos construir o esporte e para construir (fortalecer) o ciclismo feminino nós temos que atuar juntas. a cada ano mais e mais mulheres entram nisso e nós nos apoiamos umas as outras porque queremos que o esporte melhore e cresça.”

E está posta a mistura de conceitos, sem muita clareza do que estamos assistindo. Ao tocar nesses temas – competitividade entre mulheres e atuação coletiva – o vídeo, intencionalmente ou não, ganha outra conotação.

Competição entre mulheres é um tema que estamos acostumadas a lidar na vida mas poucas são as vezes que temos espaço ou oportunidade de reflexão das consequências que a desarticulação gera no nosso cotidiano e no potencial de atuação conjunta.

E ver um monte de conceitos misturados sendo colocados em um mesmo contexto leva a muitos questionamentos. Assim como os cabelos e caps, a mistura dessas temáticas no vídeo é também casualmente deliberada ou é apenas um bolo de ideias mesmo?

São duas formas distintas de ver o que está sendo apresentado ali: de um lado, o discurso pelo ciclismo feminino usado como instrumento para venda de um vídeo claramente masculino, de outro, uma estratégia (criticável ou não, não é esse o ponto aqui) de tornar um discurso mais palatável para um público mais amplo, não iniciado ou próximo dessas temáticas, utilizando-se das velhas fórmulas de apresentação e exposição de mulheres.

E em que ponta dessa dicotomia eu coloco esse vídeo?

Dicotomias como essa são extremos e não acho que tudo sempre se encaixa na lógica do ou-ou. Na verdade tendo a achar que caímos sempre na grande faixa cinzenta que separa os extremos, de tantos fatores que sempre estão inseridos em um determinado cenário. Mas ainda assim categorizações são úteis para destrincharmos situações mais complexas.

RHC 2016 // foto de Cole Wilson @ Pretty Damn Fast

RHC 2016 // foto de Cole Wilson @ Pretty Damn Fast

O interessante de observar é que tudo isso vem no contexto de uma das provas que mais tem se destacado e promovido o engajamento feminino nas competições. Desde a inclusão da prova feminina em 2014, a participação de mulheres no Red Hook Crit só vem crescendo e a organização vem se estabelecendo como uma “incubadora para a competição feminina”, sendo inclusive uma das poucas provas em que a premiação de homens e mulheres é igual.

O número de participantes mulheres só cresce e aprova de 2016 teve mais de 100 competidoras, um número impressionante se comparado com as quatro mulheres que conseguiram se classificar para a principal prova masculina em 2013, quando ainda não havia a prova feminina (Ash Duban, do vídeo, é uma delas).

 

Ash Duban pronta para a prova // foto: JP Bevins @ No life like this life

Ash Duban pronta para a prova // foto: JP Bevins @ No life like this life

Esse posicionamento da prova fica claro nessa entrevista do David Trimble, organizador do RHC. Para ele, uma prova em que só participem homens, ou até mesmo que seja acompanhada somente por homens, revela uma grave falha de sua organização.

(o que leva de novo para aquela ideia de que países e eventos em que o ciclismo não tem tanta carga de tradicionalismo são espaços cada vez mais abertos e onde tratamentos desiguais entre categorias masculinas e femininas não fazem muito sentido).

Quer ver as minas de verdade no RHC?

««« Pretty Damn Fast tem fotos da prova aqui.

««« No life like this life tem retratos das competidoras aqui.