Treino

Meus primeiros 200km: Audax

Publicado em 01/03/17
Saída com os balões de Boituva // Foto: Fabio Kassai

Saída com os balões de Boituva // Foto: Fabio Kassai

 

Por: Adriana Vojvodic

Comecei a pedalar há dois anos. Nesse tempo já fui bastante para a estrada mas a maior distância que havia feito eram 130km. Estava na hora de ir um pouquinho além e no fim do ano passado decidi fazer o Brevet 200 de Boituva do Audax Randonneurs de São Paulo. Para quem não conhece, Audax não é uma prova. Não há competição entre os participantes e o objetivo é completar as longas distâncias em um tempo determinado.

«« As semanas anteriores

Por razões mil não consegui seguir um treino específico para fazer essa distância (gostaria de ter aumentado o volume de quilometragem nas semanas anteriores) e uma semana antes do Audax capotei de bike como nunca havia feito, com direito a ser socorrida de ambulância, PS, raios-x e tudo mais.

Por sorte não quebrei nada. Aí só a dor e as contusões é que me diriam se eu poderia ou não participar. Voltei pra bike dois dias depois da queda (um pouco antes do que o médico havia sugerido), mas precisava ver como me sentia, se havia alguma dor ou incômodo diferentes quando pedalava. Fiz treinos leves durante a semana para não ficar parada e aparentemente estava bem. Mesmo com uns ralados decidi que dava para ir.

 

A kombi do Audax

A kombi do Audax

 

«« Preparação

Uma coisa que não conseguia vislumbrar é o que seria uma distância de 200km de bike. Depois dos 130km começaria o desconhecido e isso significa quase 30% da distância total.

Eu faria a prova sozinha, então tinha que criar mecanismos para monitorar o meu desempenho durante a prova toda, baseando-me apenas na minha própria (e curta) experiência.

Para visualizar melhor o que me esperava, dividi a distância total em 4 trechos de 50km. Em nenhum momento pensaria na prova como um todo, pensaria apenas nos próximos 50km. Isso trouxe mais facilidade para pensar no percurso, para planejar a quantidade de comida e água que eu levaria e para imaginar o como deveria me sentir o tempo todo. Queria chegar em cada parada bem disposta e com energia para o próximo trecho.

Nos dias anteriores à prova rolou uma preparação prévia dos equipamentos e kits:

  • Separei os itens obrigatórios para participar da prova (iluminação dianteira e traseira da bike e um colete refletivo)
  • Chequei a bike (pneus, freios, corrente e trocadores de marcha, especialmente depois da queda)
  • Estudei e planejei a rota (com o mapa e o guia de navegação, anotei todos os pontos críticos em uma colinha, que coloquei na bike – foi ótimo!)
  • Preparei o kit de comida para o pedal (na rota há Pontos de Controle a cada 50km e você pode usar essa medida como forma de calcular o quanto de comida e bebida deve levar na bike).
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Além da roupa do dia, o que levei comigo na bike: celular, Garmin, uma bateria extra, um saquinho de plástico para o documento, 3 géis, 1 barrinha de cereal, 1 bananinha, 2 caramanholas, protetor solar, 3 câmaras, uma bomba e um canivete de chaves Alen.

 

Como a ideia é comer nos Postos de Controle, as comidinhas que foram na bike eram apenas para a estrada. Pensando em quatro trechos de 50km, ficou mais fácil de calcular o quanto eu comeria no caminho, baseado na minha experiência de pedal. Escolhi levar apenas o que estou acostumada a comer e nada diferente do que já uso e faço nos meus pedais. Quanto menos inovações melhor.

Fui para Boituva na sexta-feira e de noite já deixei tudo preparado para o dia seguinte.

Sábado cedinho tomei um café da manhã com mais do que comeria normalmente para um pedal na estrada. Foram 2 sanduichinhos de queijo com geléia, mini-pães de queijo, suco de laranja e café.

 

«« Na saída

Na concentração era muita gente. Na vistoria para 300 ciclistas, fui encontrando algumas caras conhecidas, que ajudavam a quebrar o nervoso de imaginar pedalar 200km sozinha.

200km? Friozinho na barriga!

200km? Friozinho na barriga! // Foto: Fabio Kassai

 

Como não tinha noção do que esperar, estava um pouco apreensiva. E com a imaginação indo solta, mil cenários iam aparecendo na cabeça: até onde eu aguento? Me perder era uma das minhas maiores preocupações. E se a bike quebrar? E se eu quiser desistir no meio? Será que estou esquecendo de algo?

Mas ali não tinha mais volta e às 7h em ponto a gente saiu. No começo era muita gente na estrada. Deixei bastante gente sair na minha frente e fui esperando para ver como era a movimentação de tantos ciclistas na estrada. Estava um pouco nervosa então melhor observar para ver como a dinâmica da coisa ia rolando.

Aos poucos os ritmos iam se encaixando. Nos primeiros quilômetros e ainda com o sol nascendo começamos a ver balões no céu, uma das imagens mais bonitas do dia. E depois de um tempo já me sentia mais à vontade no meio daquilo tudo e comecei a prestar atenção no ritmo que eu colocaria.

Logo na saída: balões // Foto: Fábio Kassai

Logo na saída: balões // Foto: Fábio Kassai

Minha referencia era manter uma velocidade média entre 20 e 25km/h, pelo percurso todo. Um parâmetro bem tranquilo, mas que eu não tinha a menor idéia do que seria acumular isso sozinha por 200km. Não era uma meta, se eu sentisse que não aguentaria aquilo por muito tempo, mudaria sem problemas. Mas ao mesmo tempo não gostaria de terminar no fim do dia pensando que poderia ter feito melhor.

 

«« Saída >> PC1 (60km)

O primeiro trecho, até o PC1, foi de bastante reconhecimento. Queria chegar lá com a mesma disposição e energia de quando saí de Boituva. Fui seguindo num passo constante e me preocupei muito com a hidratação, bebendo alguns goles de água a cada 20min. A temperatura ainda estava super agradável, mas sabia que a previsão era de muito calor para o dia inteiro.

Em praticamente todas as descidas saio do selim para mudar de posição. Algumas subidas faço pedaços em pé também para mudar os locais de esforço e recrutar outra musculatura. Apesar de ter de fazer um pouco mais de esforço, procuro não acelerar nas subidas em pé e apenas faço isso para mudar a posição na bicicleta. A ideia era aliviar e não me esforçar mais.

Primeira parada

Primeira parada: tudo certo!

 

Chegando na parada, não poderia me sentir melhor: fiz num tempo bom, estava bem hidratada e com bastante energia. 60km feitos sem o menor problema.

 

«« PC1 >> PC2 (100km)

Dali até a segunda parada seriam mais 40km. Saí sozinha e pela primeira vez não via nenhum ciclista à minha frente ou atrás de mim. E percebi que apesar de ter pedalado sozinha no primeiro trecho, a visão de ouros ciclistas na estrada dá uma boa noção de ritmo, coisa que agora me parecia mais difícil de sacar.

Colinha pro-tour

Colinha pro-tour, ajudou super!

 

Perdi um pouco a referência e ali tive que monitorar a velocidade com o Garmin, para não exagerar – nem muito rápido nem muito devagar. Me conhecendo um pouco, já sabia que a minha tendência seria segurar demais o ritmo para me poupar. Então com o controle da velocidade – e principalmente da frequência cardíaca – sabia se podia me esforçar mais ou menos. Tudo, claro, no feeling, no que eu imaginava que seria a minha capacidade num percurso de 200km.

Ali comecei a ficar entediada. Muito tempo sozinha, muito tempo subindo e descendo – apesar de ter uma altimetria tranquila para a distância, o trajeto praticamente não tem trechos planos. É um constante sobe e desce de morros que dificilmente passam de 7% de inclinação. Não são subidas doídas, mas elas estão em absolutamente todo o trajeto. Com medo de me desgastar demais, começo a perder o passo.

Um grupo de cinco ciclistas se aproxima e eles seguem num ritmo muito bom. Aproveito e me junto a eles. Todo o desânimo vai embora e, agora sim, a diversão voltou. Fecho os 100km bem animada e super disposta, não parece que pedalei 100km e imagino que isso seja um bom sinal. Fiz força, mas não estou cansada, não tenho nenhum incômodo ou dor. Metade do trajeto feito, agora é voltar tudo. E agora que ia começar o desconhecido.

Nessa parada comi um pouco – um salgado pequeno e duas bananinhas. Me hidratei muito com água e isotônico, mais do que gostaria. A temperatura já começa a esquentar de verdade e a partir de agora é atenção total ao calor.

Segunda parada, metade do caminho: tudo certo!

Manguitos brancos, o fim do seu look mas a salvação do dia.

 

«« PC2 >> PC3 (140km)

Ali na parada encontro dois amigos e saio com eles. Mas logo os ritmos se desencontram e decido ir no meu passo. Os 100km anteriores já foram o suficiente para me indicar onde estava o meu ritmo confortável: entre a economia necessária para essa distância e o esforço que eu seria capaz de segurar pelos próximos 100km.

Esses 40km passaram bem rápido e não tenho muitas memórias. Aqui percebo que estou usando muito as coisas que tenho aprendido com a Gisele Gasparotto. Nos treinos que temos feito no Lulufive tenho prestado muito atenção na economia de energia, na troca eficiente de marchas e em como usar o terreno a seu favor. Isso me ajuda não só a aproveitar melhor as descidas mas também a me manter focada no que estou fazendo, pedalando com propósito.

Faltando 2km para a última parada, começa a bater uma fominha. Fome boa, timming perfeito.

Chego já mais cansada e decido que essa parada será mais longa. Dessa vez sento e é o primeiro momento que sinto bater o cansaço. Comi um sanduíche de queijo e presunto, uma maçã e uma barrinha de castanhas. Bebo muita água e isotônico. O corpo já estava quente demais, está 40 graus no sol e precisava esfriar com a bebida gelada.

canela-audax-boituva

 

«« PC3 >> Fim (200km)

Boituva estava a 60km de distância e por conta do calor planejo fazer uma parada bem no meio do caminho (170km). O estava tanto calor que não poderia pedalar tudo sem um reabastecimento de água fresca.

Os primeiros 30km foram os mais sofridos do dia. Bateu um grande desânimo e a temperatura só aumentava. O termômetro mostrava 43 graus. Ali pensei em algumas coisas que me ajudaram a continuar. Uma cicloviagem que fiz ao Goiás, em que o calor era insuportável. A Nara que fez 360km também sozinha, de Manchester a Londres. Essas referências ajudam a delimitar o que você está realmente sentido, coloca as coisas no plano mais concreto.

Referências.

Referências. Quando o calor aumentava e estava quase insuportável, lembrava do Goiás e de como já pedalei em lugares mais quentes.

 

No meio disso tudo um daqueles ciclistas, daquele grupo que acompanhei lá no início, reaparece e começamos a pedalar juntos.

A companhia me tirou do looping mental de questionamentos: “Porquê as pessoas fazem 200km? Quem inventou isso? Tudo bem cair nessa uma vez mas quem faria isso pela segunda vez? Se eu parar agora como vou para casa? Nunca mais faço isso.” Me ajudou a voltar para um passo melhor.

Mesmo assim o calor estava insuportável e aí, por um momento, o vento parou totalmente, o calor começou a subir do asfalto e a ideia de não ter uma sombra ou um alívio nos próximos minutos virou grande demais: comecei a ver ansiedade tomar conta de mim tive que parar para respirar. Um mini-desespero.

Mas já sabia o que fazer. Tomei o que pude de água e não queria ficar ali parada no sol. Combinamos que pararíamos no próximo posto. Mais um quilometro e encontramos uma venda de sucos. Perfeito. Viramos garrafas de suco de laranja e água fresca. Instantaneamente a bateria recarregou e me senti bem. Agora era apenas gerenciar os últimos 30km.

30 km lentos, mas era o que dava. Subidas infinitas e supresa! um pneu furado nos últimos 10km. Trocamos o pneu (obrigada pelo help Eduardo!) e seguimos. 7km, 5km, 2km. Finalmente a entrada da cidade. Finalmente a rua da chegada, finalmente descer da bike!

Mas foi entrando na cidade que percebi que apesar de muito cansada, apesar de querer muito parar, meu passo ali estava ritmado e não tinha qualquer dor.

Terminado, passaporte carimbado, banho, um jantar com os amigos (comida de verdade para ajudar na recuperação!). Fui dormir as 20h, um sono agitado e sentindo as pernas um pouco pesadas. No dia seguinte acordei bem, super disposta.

Rolou! // Foto: Fabio Kassai

Rolou! // Foto: Fabio Kassai

 

«« Só o agora

Me perguntaram se eu tinha pensado muita coisa, passando tanto tempo pedalando sozinha. E a verdade é que não pensei em muita coisa não. Pedalei, apenas pedalei. Pensei na sede e na fome, no calor e no pedal. Estava, nas 9:15h de Audax, apenas ali. Nenhum pensamento fora do agora. E acho que isso foi a coisa mais incrível do dia.

E essa quebra durou ainda dias. Escrevendo isso começo a entender o efeito profundo que pode ter, isso de passar tanto tempo “sem pensar”. Pedalando, não fui para outro lugar, pelo contrário. Fui para o único lugar em que eu estava, no meio da estrada, pedalando sem parar. E como é raro fazer isso. E como tem coisas que se reorganizam dentro da gente quando vivemos só o agora.

Ter feito os 200km da forma como fiz não me mostra apenas que sou mais forte do que imagino, isso é meio clichê. O que me surpreendeu foi ver que cumpri meio no feeling a minha meta de 25km/h (minha média foi de 24,9km/h), que não tive uma dor sequer, que no dia seguinte estava ótima, que apesar de não ter treinado especificamente para isso, meu corpo está treinado o suficiente para me transportar em um só dia e bem, 200km.

Ver que isso é resultado de uma construção, que vai crescendo pouco a pouco, desde que você não desista.

Acho que essa experiência foi mais marcante do que imaginaria. Não por terminar o brevet, mas por ter sido desse jeito.

Foto: Fabio Kassai

Foto: Fabio Kassai