Cena

Manchester >> Londres

Publicado em 13/09/16
Manchester to London

Manchester to London

 

A Nara Ishikawa mora na Inglaterra e sempre tem uma novidade. Na semana passada ela participou de um super desafio: completou o Manchester to London, um pedal de arrecadação de fundos promovido pela Rapha, que leva ciclistas a pedalarem 220 milhas em um único dia, são mais de 350km!

Depois de chegar e descansar um pouquinho, ela contou em detalhes como decidiu entrar nessa e como foi fazer sozinha o pedal mais longo de sua vida! Deu vontade de fazer também!

 

Adriana: Nara, essa distância era nova para você. Por que e como você decidiu participar desse evento?

Nara: A decisão de participar do Manchester to London (M2L) partiu do meu fascínio pela Transcontinental Race (TCR), uma prova que todo ano começa em algum país da Europa e termina na Turquia. A rota não é predeterminada e cada competidor traça o próprio caminho passando por checkpoints estabelecidos. O interessante da TCR é que é uma corrida feita solo ou em dupla e sem nenhum suporte. O relógio começa a contar na largada e só para na linha de chegada. Ajuda de conhecidos, re-abastecimentos ou hotéis pré-programados não são permitidos e são fora do espirito da corrida. Para fazer a TCR, são em média 18 horas de pedal por dia percorrendo em média 400km para completar os 4.000km totais.

Na minha cabeça sonhadora e de total iniciante no ciclismo (tenho 1 ano de pedal em minhas pernas), eu achava que poderia participar deste evento, até receber o formulário de inscrição e o guia da corrida. Ao preencher fui percebendo que eu estava longe de conseguir participar. Acho que foi a questão que perguntava quantas vezes eu já pedalei 400km em um dia e quanto tempo levei que acendeu a luzinha para mim.

Nara e a bike no trem até Manchester

Nara e a bike no trem até Manchester

 

Virou então um parâmetro, pedalar os 400km em um dia? Como você chegou no Manchester to London?

Logo depois de ter abandonado a ideia da TRC eu recebi um e-mail da Rapha sobre o Manchester to London. Um evento caro pra caramba mas com todo o suporte – paradas de abastecimento, paramédicos, mecânicos e até massagista. Totalmente o oposto da Transcontinental tanto nesse sentido quanto por ser um terreno bem plano. Na M2L, a distância percorrida em um dia era próxima da distância que eu queria ser capaz de fazer: 350km.

Manchester a Londres é um evento para arrecadar dinheiro para caridade. Por isso, além dos motivos pessoais que alguém pode querer pedalar uma distância louca em um dia só, tem o lado que você estar contribuindo para a Ambitious About Autism, uma organização incrível que trabalha principalmente com educação de crianças autistas.

Desci os degraus da minha cabeça de aquariana avoada, quase coloquei os pés no chão mas decidi que, por mais que fosse ambicioso, talvez este evento eu conseguiria completar (com bastante treino). Na época eu só tinha feito 2 ou 3 pedais de 160km então eu tinha muito chão pela frente. Mas com 6 meses para treinar e o verão chegando, imaginei que seria tranquilo.

E como foi sua preparação nesses 6 meses? Como foram seus treinos?

Meu treino não foi calculado. Aliás, a única coisa que eu fiz foi sentar o traseiro no selim o máximo de vezes possíveis. Comecei a participar de critérios e corridas de rua. Para um evento desta distância dizem que se deve fazer dois pedais, um seguido do outro: um de 160km e outro de 75% da distância, ou seja, uns 260km.

Graças a amigos do meu clube de ciclismo, eu fiz uns 3 ou 4 pedais de longa distância, mais ou menos um por semana antes do evento. Onde moro tem muita elevação então fica mais pesado completar essa distância. Fiz uma dobradinha, com um pedal de 160km acompanhada e outro sozinha de 112km. A distância mais longa que fiz foi um pedal de 183km, com a elevação total (3.000m) igual ao percurso de Manchester para Londres.

Na véspera: tudo pronto.

Na véspera: tudo pronto.

 

No dia do pedal, como foi sua preparação? Fiquei sabendo que você teve problemas com a bike, como foi isso?

Alguns dias antes de embarcar no trem para Manchester, deixei a bicicleta no meu mecânico local e voltei para casa para fazer a mala. Tudo empacotado, o mais leve possível – a ideia era poder pedalar com a mala nas costas mas como eu ficaria em Londres por alguns dias após chegar não estava tão leve assim.

Então fui buscar a bicicleta e chegando lá a notícia: “Seu seat stay está rachado”

Eu não pratico meditação o suficiente mas minha reação foi completamente equânima. Ok, tirar foto de todos os ângulos, escrever para Canyon para ver o que eles podem fazer. Ainda bem que isso não aconteceu comigo em cima, descendo um morro a 50km/h. A resposta da Canyon foi que “esta bicicleta não é segura para ser usada.” Me deram um guia de como embalar a bicicleta e agendar a coleta para que eles possam analisar a rachadura, o que pode levar meses.

Por um segundo fiquei até aliviada, achando que estava livre de ir pra Manchester. Já estava tendo dor de barriga só de pensar na louca distância de Manchester até Londres. Eu não tinha muitas opções. Infelizmente já tinha vendido a minha primeira bicicleta, que era grande para mim. Mesmo assim perguntei para o novo dono da minha ex-bici se eu poderia usá-la. Com a resposta afirmativa, eu estava no trem totalmente despreparada para o que estava para vir.

 

Início

Início

 

Então tudo começou já com toda a transição até Manchester.

Sim! No hotel em Manchester consegui subir e descer de elevador com a bicicleta somente no início e no final da estadia. Mas durante o tempo que estive lá, o elevador não estava funcionando então tive que usar as escadas. O provérbio de ciclismo buzinando na minha cabeça: “Nunca corra quando você pode andar, nunca sente quando você pode deitar e nunca, nunca mesmo suba escadas” (Tudo bem, pode ser que eu mudei o provérbio um pouco mas o espírito dele com certeza é este). Senti uma insegurança enorme de estar fazendo tudo errado.

Depois de passar a noite inteira acordando a cada hora com medo de perder o alarme do despertador, finalmente 4:30h chegou. Levantei, tomei uma ducha, comi o mingau de aveia frio que preparei na noite anterior, tomei o último gole dos 6 litros de suco de beterraba que tomei na semana. Um sopro de rapé para me energizar para árduo dia por vir.

E como foi o início do pedal? Você pedalou acompanhada ou sozinha?

Foi dada a largada e a chuva que não havia parado desde o dia anterior nos encharcou. Bastante subida e eu sentindo as pernas de tanto subir escadas. A primeira parada foi depois de 80km. Enrolei um pouco numa fila para tomar um café, engoli o máximo de comida que pude – eu sabia que gel seria só em caso de emergência. Enchi minhas garrafas de água e voltei a pedalar. Dali em diante a chuva foi diminuindo, as ruas foram secando e o terreno estava mais plano.

Comecei sozinha. Pedalar solo tem suas vantagens e desvantagens. Nos meus treinos eu pedalei com amigos na maioria das vezes. Além de me mimarem, nunca me deixando ir na frente, eles sempre me esperam quando eu sobro em subidas e ter companhia de quem a gente gosta é muito bom, podendo dividir dificuldades e vitórias. No caminho acabei conhecendo muitos companheiros ciclistas, me juntava e me separava de grupos num fluxo natural do ritmo de cada um, ou de cada grupo. Conheci o Chris depois da estação de abastecimento 2, com quem pedalei até um pouco depois da estação 3 quando nossos ritmos não batiam mais.

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O que foi notando ao longo do caminho, quais foram suas percepções nesse começo?

Percebi que alguns elementos são muito importantes para completar um evento assim: comer, beber e ser honesta consigo mesma sobre seu ritmo para não demorar mais do que necessário e para não quebrar muito cedo. Era comum ver gente mandando ver e passando super rápido e lá na frente ver a mesma pessoa sobrar.

Eu e o Chris trabalhamos bem juntos num ritmo bom até chegarmos em uma rua que estava fechada por policiais que nos disseram que não podíamos entrar ali. “Mas temos que seguir as flechas!”

O paramédico que seguia o grupo em sua moto nos disse que teríamos que pedalar de volta até a última rotatória o que adicionaria 16km ao nosso longo dia! Mais tarde descobrimos que tinham achado uma bomba da 2a Guerra Mundial que não havia sido detonada!!

Cada flecha não mostrava apenas a direção mas também que mais um pedaço do percurso havia sido completado. A organização do evento foi tão perfeita que a única estação que demorou um pouco demais para chegar e que eu cheguei com sede e duas garrafas vazias foi a estação 4, justamente por causa do desvio da bomba.

Lindo tunel no Monsel Trail

Lindo tunel no Monsel Trail

Com isso você estava na segunda parte do percurso agora? Como foi avançar na noite, sentiu muita diferença no pedal?

Sim e eu estava sozinha por grande parte do caminho agora. Sempre comendo e bebendo porque eu sabia que se eu deixasse meus níveis de açúcar ou minerais no sangue cair eu não conseguiria completar os 350km. Em inglês chama “bonking”. Quando a gente “bonk” somos inúteis – ficamos extremamente fracos e muitas vezes emotivos, ou seja, a única coisa que dá para fazer é sentar e chorar. Mesmo comendo e bebendo, a vontade de chorar ficava entalada na garganta. Toda vez que eu sentia o choro subir eu engolia e respirava. Exalava profundamente tentando retirar o CO2 do corpo.

Chegou a hora de ligar o pisca, a escuridão avançando rapidamente. Esperei ao máximo para ligar minha lanterna, porque sabendo que ela era poderosa, a bateria esgotaria rápido também. Não deu outra, em pouco tempo de uso a lanterna se foi. Um breu. Foi a pior parte do pedal com certeza. Tive que diminuir a velocidade e, mesmo sem ser religiosa, rezar para qualquer poder maior me ajudar a não perder nenhuma das flechinhas ou para que eu não furasse o pneu agora.

Luzinhas de Londres!

Luzinhas de Londres!

Vultos de raposas para lá e para cá eram minha única companhia até que uma eternidade depois um grupo de ciclistas me alcançou. Era minha salvação mas eles eram tão rápidos! Acompanhei por mais tempo que minhas pernas aguentaram e sobrei no quarto morro. Muita tristeza, eu de volta no breu total pedalando devagarinho. Lá na frente tinha luz na rua. Ufa! Uma van da Rapha na esquina. Engolindo o choro eu disse ao homem da van que estava sem luz. Todo sorridente ele disse que não tinha problema, porque dali em diante as ruas eram iluminadas. Feliz que eu ainda tinha chance de completar este desafio, agradeci o homem da boa notícia e voltei a pedalar.

Acabada e continuando o exercício de engolir o choro e respirar profundamente subindo um morro, vi um monte de luzinhas na distância. “Estou em Londres” pensei.

Eu e Chris

Nara e Chris

Um tempo depois estava no meio do caos da cidade. Me juntei com outros ciclistas e um bom tempo de pedal atravessando a cidade chegamos ao lindo Velódromo! Linha de chegada, pura alegria, missão comprida! Ver o marido e os cachorros, se despedir dos novos amigos feitos nos sofrimentos e alegrias de um dia só. Foram 16 horas 35 minutos, 370km.

Fim do dia

Fim do dia, em Londres.