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Do amador para a pista: Gisele Gasparotto

Publicado em 10/10/16
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Gisele Gasparotto / Foto: Divulgação

 

Sentamos para tomar um café e Gisele Gasparotto já começou a falar. Ela sabe que sua história, das competições amadoras para o ciclismo profissional, é o melhor mote para qualquer ciclista iniciante. E na conversa os assuntos foram aparecendo, organizados a partir do próprio envolvimento da Gisele com o ciclismo. Quanto mais ela treinava, participava de provas amadoras e depois profissionais, maior foi ficando seu entendimento do que era o esporte e a estrutura do ciclismo feminino no Brasil.

 

Adriana: Você corre no ciclismo profissional aqui em São Paulo desde 2012, então começou um pouco mais tarde, não foi algo que começou na sua adolescência como normalmente acontece com as atletas. Como alguém começa a treinar e depois vai para nas competições da elite?

Gisele: É, para o ciclismo profissional, comecei mais tarde. Andar de bicicleta com frequência, eu comecei em 2005. Mas naquela época não treinava, eu vinha trabalhar de bicicleta. Encaixar a bike no seu dia-a-dia é coisa de criação de habito, não tem como de uma hora para a outra você mudar. Mas aos poucos eu fui estabelecendo umas metas, para ir avançando. Se no começo eu ia duas vezes na semana, depois comecei a ir três. E fui criando o hábito e fiz isso por dois anos direto. Depois de um tempo eu engravidei e dei uma parada. No final de 2009, quando minha filha não ia mais comigo para o trabalho é que voltei a me locomover de bike e aí decidi pegar firme.

 

Foi aí que começou a treinar?

Sempre fui bastante ativa, fazia natação, box. Comecei a ir nesses grupos noturnos de pedal, ia uma, duas vezes por semana. Em uma aula de box, no comecinho de 2010, meu professor me perguntou se eu conhecia a prova Claro 100k. Ia ser no Rodoanel e o pessoal desse grupo noturno também ia participar. Aí eu pensei: “São 100km. Se eu faço 30km nos pedais na cidade, um pouquinho a mais acho que dá!” Hahaha!

 

Como assim? Isso não é um pouquinho!

Eu não sabia o que me esperava! Li no regulamento que para completar a prova no tempo máximo eu precisava manter 20km/h de média. Então eu fui, de tênis mesmo, nem tinha sapatilha. Ali é que eu vi as pessoas com outras bicicletas e comecei a entender onde eu havia me enfiado. Mas fiz a prova, terminei dentro do tempo. Foi um sofrimento, mas foi aquele sofrimento que dá satisfação depois de ter terminado, de ter conseguido. Como eu sabia que teria várias etapas da Claro 100k, eu decidi treinar para isso, virou uma meta. Na prova seguinte eu já fui de sapatilha, depois teve a do Rio de Janeiro e eu comprei uma bicicleta speed.

 

Então podemos dizer que 2010 foi um divisor de águas: do uso de bike para locomoção para a participação de provas amadoras de ciclismo. E os treinos você fazia sozinha? Quando você começou a treinar com apoio de um treinador ou assessoria?

Com essas provas eu fui entrando nesse mundo, comecei a me interessar mais, conhecer o esporte mesmo. Então no final de 2010 entrei em uma assessoria, comecei a treinar mais forte. Foi uma coisa meio natural, fui participando de provas, gran fondos, provas amadoras. Comecei a ir no Pelotão do Jockey com os amigos e aí eles começaram a falar das provas da Federação [Brasileira de Ciclismo], que eu não conhecia. E sugeriram que eu fizesse a Volta do ABC, que é uma clássica. Mas eu na época nem sabia que era uma prova, que iam todas as ciclistas de elite, e fui meio sem saber. E lá estavam todas as profissionais: a Janildes e Clemilda Fernandes, Sumaya Ribeiro, Ana Paula Polegath, Camila Coelho, Débora Gerhard! E eu ia largar com elas porque ali não tinha categoria separada de amadoras.

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Gisele Gasparoto no evento-teste das Olimpíadas no Velódromo do Rio de Janeiro / Foto: Divulgação

 

Você ainda não era profissional, como foi participar dessa primeira prova com a elite?

Eu achei que se eu andava no Jockey, ali eu pelo menos andaria com elas. Na primeira arrancada que elas deram eu já sobrei. Hahaha! Por isso que eu não gosto quando dizem que as provas femininas são um passeio, que as meninas não andam. Quem fala isso não entende ou não quis entender a dinâmica do nosso ciclismo. O nosso pelotão, o feminino, é menor. Então é muito difícil você ter ciclistas suficientes para colocar um passo forte a prova toda. Enquanto o masculino tem 10 ou 12 ciclistas na equipe, que vão se revezando na prova, o feminino tem muito poucas. As equipes maiores tem 6 ciclistas, há equipes com 4 ou apenas 2 ciclistas. Com um pelotão de 20, 30 meninas, não dá para você manter um ritmo forte o tempo todo com tão poucas, não tem gente suficiente para se revezar na frente. Então, com isso, a prova acaba tendo um perfil mais de ataque e menos um passo forte constante. Depois dos ataques tem que dar uma recuperada e então o pelotão dá uma baixada.

 

Você diria que esse é o perfil das nossas provas femininas aqui no Brasil?

Diria que sim. Nas provas do feminino, começa uma paulada. Chega no meio da prova, dá uma diminuída, e no final, puxa de novo. Normalmente as pessoas não procuram entender esse tipo de coisa e já começam a falar que é passeio. Não é um passeio. Porque todo mundo que vai achando que é um passeio não consegue acompanhar. Porque é muita explosão, tem que aguentar a explosão e aquele ritmo de um ataque atrás do outro. Nas saídas de curva, que é normalmente onde vão acontecer os ataques, você precisa ter condicionamento para aguentar isso. Então por mais que você seja uma ciclista que tem um bom passo, se não tiver explosão e aguentar segurar esses ataques, não vai conseguir acompanhar.

 

E você acha que esse perfil de prova se repete lá fora também, no pro-tour feminino?

Acho que não. Lá as provas são mais longas, de estrada, por etapas. Corri já o Tour da Costa Rica, em 2014, e percebi o que é um pelotão com 100, 150 meninas. Ali dá para você manter um ritmo mais alto, a gente saía na largada neutralizada a 45km/h, é um ritmo diferente. Aqui não, estamos falando de provas de circuitos menores, fechados, de uma hora, com muitas curvas. Não são provas de estrada e isso muda tudo.

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Pedalando com Peter Sagan / Foto: Divulgação

 

Naquele dia na Volta do ABC, você percebeu isso do pelotão feminino? O que te fez querer correr novamente?

Na volta do ABC eu entendi isso. Porque eu sobrava em todas as curvas. Aí eu entendi que era isso, você precisa aguentar as pauladas do começo. Claro que quando tem mais meninas a gente consegue colocar um ritmo mais forte. Mas tem prova que não tem gente o suficiente então vamos na estratégia. A gente analisa mais o adversário, é outro perfil de prova. Na volta do ABC eu percebi o que eu tinha que treinar, porque eu gostei. Gostei muito dessa dinâmica, de arrancadas, de velocidade. É meu perfil.

 

Como você define seu perfil de ciclista? Depois de quanto tempo de treino é que você entendeu qual era seu perfil?

Apesar de gostar muito da dinâmica de explosão, do ataque, o perfil mesmo faz pouco tempo que descobri. Porque eu sempre quis fazer de tudo. Eu queria correr as provas da Federação, que são curtas, mas também queria correr as provas de estrada, os gran fondos. Então quando eu comecei a treinar, eu queria treinar para tudo. E aí teve um dia que meu treinador falou: “Não dá!”. Então ele fez uma análise pelos meus números, eu trabalho com medidor de potência, não só com batimentos cardíacos, então ele consegue ter uma análise mais fiel do que eu sou capaz de fazer. E pelos meus números, eu sou passista. Porque tenho uma constância nos tiros acima de 5 minutos que é melhor do que nos mais curtos. E a partir daí começamos a trabalhar melhor isso. Porque até então eu achava que eu era velocista, já que eu acho que tenho mais facilidade, porque não sofro tanto. Mas os números mostraram outra coisa, e por isso eu comecei a trabalhar mais o passo. Hoje eu diria que sou híbrida. Eu não sou nem velocista, uma sprintista que se defende porque eu acho que chego muito cansada eu trabalho muito durante a prova, mas eu também consigo ter um passo que muita sprintista não tem.

 

E como você vê esse perfil se nas provas de ciclismo aqui do Brasil? Como você se favorece com ele?

Como consigo ser híbrida, isso acaba sendo uma vantagem aqui. Porque como o ciclismo aqui é muito ingrato, você tem que fazer de tudo, correr o Campeonato Brasileiro de Pista, o Brasileiro de Estrada, o Contrarrelógio. Tem que ser versátil, pois temos poucas atletas e poucas provas. Por exemplo, provas de pista, só tem duas por ano. Que é o brasileiro e o inter-estadual. Por isso eu comecei a trabalhar essa versatilidade. Eu gosto muito de velódromo, então nesse ano eu foquei nas provas de pista, não participei de nenhuma prova de estrada. No Campeonato Brasileiro de Pista vou correr a Omnium, que é justamente a prova que você precisa ser versátil. Porque tem a velocidade e tem a resistência.

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Com as ciclistas da Equipe Memorial / Foto: Divulgação

 

Como foi esse foco para os campeonatos de pista? O que mudou no seu treino?

Antes sábado e domingo eu ia para estrada. Fazia longos de 4 ou 5 horas de pedal. Hoje não, vou nos fins de semana para o velódromo. Mas sinto falta de ir para a estrada pois nesse tipo de treinamento você perde muito da socialização. São treinos que estou sempre sozinha. E eu gosto de sair de pelotão, de ir com os amigos. É uma coisa que me faz falta. Então vamos ver como fica no ano que vem, se eu não tiro um pouco o pé. Eu falo isso todo ano!

 

Na Volta da Costa Rica, o que mais você percebeu de diferença com o nosso ciclismo, o que chamou sua atenção?

Acho que as maiores diferenças que eu senti foram de estrutura e do público. De estrutura você tem as equipes, que tem mecânicos, massagistas, técnico, diversas bikes, uniformes, etc. Tudo muito organizado, com uma rotina de dia-a-dia de competição já estabelecida. Você vê que há estrutura e preparação. E do público, a forma como iam acompanhando e gostando de ver tudo aquilo. Interessados pelo ciclismo, olhavam a gente com admiração. Aqui não tem muito isso. Aqui vejo admiração dos bem iniciantes. Por exemplo na Nove de Julho, eu senti uma proximidade maior com essas pessoas. As pessoas que acompanham mesmo o ciclismo, eu percebo uma distância.

 

Como assim uma distância, como você percebe ela?

Acho que aqui existe um abismo entre o ciclismo amador e o ciclismo profissional. Falo até por mim, quando comecei. Eu nem sabia que existia ciclismo profissional, que existiam as corridas. Para podermos ampliar o ciclismo, precisamos trazer conhecimento, as pessoas precisam saber o que é o ciclismo. Acho que existe esse abismo e precisamos criar uma ponte ali para unir todo mundo, porque no fundo é um esporte só, é uma coisa só. Acho que falta essa disseminação do conhecimento do ciclismo. Juntar o amador com o profissional, aproximar esses mundos. Todo mundo sabe quem é o Sagan, todo mundo quer a bike dele. A bike do Gideoni ninguém sabe qual é. Nem sabem quem é Gideoni Monteiro. Até gente que participa de provas de vez em quando.

 

Você está para lançar um projeto novo. O que é esse projeto?

Eu percebo que falta um pouco de técnica para as meninas que estão começando, e mesmo aquelas que já tem força, as vezes não tem muita habilidade em cima da bicicleta. Eu adquiri muita habilidade na bike no velódromo, porque lá você acaba adquirindo uma habilidade maior, senão você se esborracha no chão. E eu vejo que as pessoas estão muito preocupadas com performance e pouco preocupadas com a técnica. De pular um obstáculo, andar sem as mãos, saber descer, pegar uma serra com segurança. Mesmo o contato, as vezes acontece de alguém encostar em você e se você se desespera é que pode dar problema, quedas. Saber desviar de uma queda. E observando isso, esse receio que as pessoas tem, eu propus para meu treinador, Ronaldo Martinelli, em fazer uma coisa para o publico feminino e ele topou. Então é um programa que estamos preparando, vamos lançar em parceria ainda nesse ano. Não será uma assessoria de treino, de condicionamento. São módulos de técnica, que você escolhe dependendo de seu objetivo.

Eu admiro muito todas as mulheres que encaram o ciclismo, independente de ser elite ou amadora. Porque é um esporte muito difícil. Você precisa ter uma dedicação, uma disciplina, precisa se privar de algumas coisas, sofre demais. É um esforço enorme. Admiro não só as meninas que estão lá na ponta, admiro quem está começando também, que se esforça. É um esporte difícil, se você parou três dias você vai sentir, tem que estar o tempo todo estimulando, há muito risco de acidente e eles normalmente são feios, não é coisa pouca. Não é fácil e para encarar você precisa ter esse espírito mais aventureiro. Então é só admiração que eu tenho e quero poder retribuir tudo o que eu já recebi de apoio quando eu mesma comecei a pedalar e treinar.