Cena

O fenômeno Flávia Oliveira

Publicado em 10/11/16
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“Eu não nasci nas montanhas, mas eu fui para lá assim que eu pude” | Fotos: Diego Cagnato

 

Num país em que a estrutura que atletas recebem para se desenvolver é tão pouca, especialmente no esporte feminino, o valor de uma ciclista que desponta no contexto internacional tem um peso ainda maior. É disso que estamos falando quando vemos as conquistas da Flávia Oliveira, a ciclista de melhor colocação que o Brasil já teve em uma Olimpíada até hoje (considerando as categorias feminina e masculina). Atualmente a melhor brasileira no ranking da UCI, a sua 39a posição entre as melhores ciclistas do mundo não deixa esquecer: estamos diante de um fenômeno.

Mas essa posição não é a toa. Isso é resultado de muito, mas muito investimento pessoal, muito trabalho e foco. Nada na sua carreira foi dado de bandeja e as suas conquistas foram construídas passo a passo. Ela não pula etapas e sua curva é ascendente.

Esses resultados vem crescendo visivelmente nos últimos dois anos: Flávia vem conseguindo posições absolutamente inéditas desde 2015, que ela prefere ver como a construção de uma casa, em que cada tijolo foi colocado paciente e disciplinadamente nos dez anos que ela se dedica ao esporte.

Uma atleta que só descobriu seu verdadeiro talento aos 25 anos, quando parou de participar de provas de triatlon para dedicar-se exclusivamente ao ciclismo, é com o mesmo respeito pelas subidas duras que ela encara as etapas que ainda precisa passar para desenvolver-se ainda mais. Uma casa não se começa pelo telhado.

 

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Quando falamos do esporte feminino, ela é realista: quer sim atrair e incentivar mulheres brasileiras a se dedicarem ao ciclismo. Mas ao mesmo tempo sabe das dificuldades e barreiras que atletas aqui sofrem e não quer dar a impressão de que o caminho é fácil. Pelo contrário, a necessidade de sacrifícios e superações para uma brasileira é infinitamente maior do que para aspirantes de países com tradição no ciclismo ou os atuais grandes investidores do esporte.

Mas mesmo com essa consciência, a paixão pela bicicleta fala mais alto: “Eu quero fazer a minha parte e eu não posso exigir que os outros façam. Não adianta eu sentar aqui e ficar reclamando do que não tem. Temos que capitalizar nessa atenção que o ciclismo teve nas Olimpíadas e mostrar até para nós brasileiros do que somos capazes.”

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Mas independentemente de suas outras ações, o seu desempenho, a sua vida de treinos, já é um baita incentivo. Ao manter-se com foco e determinada, mesmo quando as chances são baixas e os fatores estruturais jogam contra, ela é prova de que força e endurance não são requisitos apenas dentro das provas, mas também fora delas.

Encontrei com a Flávia em sua recente passagem por São Paulo. Depois de tentar pedalar com ela em um fim de semana, a ideia era agora tomar um café e conversarmos sobre ciclismo. No meio da conversa, Francisco Martins do Daemon Cycling se junta a nós e ampliamos o papo.

Se estamos diante de um fenômeno, quero saber como ela pensa e funciona, como chegou lá. Começamos falando das Olimpíadas, claro. É a sua conquista mais divulgada e conhecida pelos brasileiros e fica difícil não começar por ali. Então pergunto como foi sua preparação para a Rio 2016.

“Eu estava focada, tanto que nem corri o Giro Rosa para me preparar. Às vezes você abre mão de algo e acha que está perdendo de um lado, mas está ganhando de outro. Foi um aprendizado muito grande nessa temporada, de confiar no planejamento, no processo, porque muitas vezes a gente acha que mais é melhor. Mas eu mudei meu calendário todo, focando para as Olimpíadas.”

 

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“Conforme você vai ficando melhor, não fica mais fácil, os desafios só ficam maiores.”

 

Quais foram essas alterações?

Normalmente eu não vou nas provas clássicas do início do ano, mas dessa vez eu fui porque tinha que correr as provas que me dariam pontos para a classificação no ranking, [o que determinaria quais atletas brasileiras participariam da seleção]. Além de pensar na pontuação, também participei de algumas provas pensando nos paralelepípedos, porque eu tinha que melhorar nessa área. Então eu tinha que sair da minha zona de conforto.

Imagino que para quem está constantemente participando de provas, sair da zona de conforto não deve ser tão simples, você sempre está fora dela!

É que não era só o tipo de prova que mudava. Eram provas que eu tinha que esquecer do resultado imediato, porque eu estava competindo ali para melhorar outras áreas do esporte, coisas que eu podia melhorar, que eu tive que melhorar, para poder me sair bem no Rio. Tinha a meta maior, que eram as Olimpíadas, eu sabia o que estava fazendo, mas na hora que você está ali, que não vê o resultado imediato – porque a gente tem uma pressão de ter resultado sempre – acaba ficando pesado, abala o psicológico.

O que você diria sobre essa confiança no planejamento? Como foi essa sua preparação psicológica (agora e desde o início)? Há um acompanhamento feito pela equipe ou cada atleta define o seu?

Não, a equipe não tem isso e quem quiser ter um apoio vai procurar separado. Eu tenho lido e pesquisado bastante e além disso meu treinador também sabe como foi meu desenvolvimento no ciclismo dos apertos e desafios que uma ciclista vinda da onde venho tem que passar, as diferenças de uma federação para outra. E ele sabe o nível que as mulheres do pro-tour estão. Para ter uma ideia, a média de velocidade do contrarrelógio por equipes do mundial de ciclismo em Doha foi 50km/h, em um trajeto de 40km. Você tem noção do que é isso?! Ele sabe que é com isso que estou lidando e então entende quais são as minhas necessidades. O que é preciso é compreender a realidade da competição e se colocar naquele nível.

 

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“Faça por você. Sua competição com você mesmo é o mais importante.”

 

Como foi o caminho de preparação para essa meta tão alta?

Foi todo um processo para chegar nisso. Mas desde que eu decidi que queria fazer parte desse evento e desse universo eu já fui atrás, porque tinha que me preparar para esse tipo de competição. Faz mais ou menos dois anos que eu comecei a trabalhar com o meu atual treinador, então nesse momento já sabíamos qual seria o percurso do Rio e começamos a trabalhar com esse foco. Já no primeiro ano eu consegui a camisa da montanha no Giro Rosa e agora essa posição nas Olimpíadas. Vamos esperar que essa progressão continue! Mas para isso tem a questão da confiança, você tem que confiar no seu treinador, no treino.

Seu treinador é um homem. Como é a abordagem dele em relação ao treino de ciclistas mulheres? Há uma preparação específica?

Mulher é muito diferente do homem. Não temos a testosterona que os homens e também não recuperamos tão rápido. O meu treinador tem um foco em outros exercícios, como ioga, alongamento, em coisas diferentes. Porque a gente pensa em treino só no pedal e ele até se irrita comigo porque ele fala que mais não é melhor. Ele fala que menos é melhor, você tem que focar na qualidade ao invés da quantidade. Tudo tem seu tempo e você vai colocando um tijolinho em cima do outro, não tem como você colocar o telhado sem ter colocado o alicerce. E você vai aprendendo aos poucos. E a gente tem outras coisas, temos a menstruação, isso muda bastante, e a parte emocional. O homem tende a internalizar tudo, a mulher precisa colocar tudo para fora. É diferente. E ele sabe lidar com essa diferença e precisamos de alguém que saiba ver essa diferença e trabalhar com ela.

 

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“Cada oportunidade que você tem de aprender, você tem que crescer. E no ciclismo você está aprendendo sempre. Todo dia, você tem uma possibilidade, uma chance.”

 

Quando você percebeu que era competitiva?

Desde sempre! Eu sempre fui atleta e competi desde muito cedo, então já estava naquele nível em que vencer não é uma opção, é uma obrigação. Eu nadava com o Fluminense e ganhar era um compromisso. Eu jogava futebol pela faculdade mas ali eu não tive muita oportunidade de jogar porque nos dois primeiros anos você não participa das competições. Então eu saí e fui para o triátlon. Que é uma coisa que você faz por conta própria. E foi assim que eu comecei a conhecer o ciclismo.

Ainda bem que você fez isso, mas por que você saiu do triátlon para se dedicar apenas ao ciclismo?

Eu tinha uma Felt de alumínio, pesada, era um chumbo. Mas com ela eu fiz vários triátlons de distância olímpica. Fiquei em quinto lugar na minha primeira competição e fiquei muito empolgada, comecei a treinar bem e na segunda eu já fiquei em primeiro. E comecei a pedalar com um grupo para melhorar meu pedal. Por conta desse grupo eu conheci o Jonathan Boyer, que foi o primeiro americano a ir para o Tour de France, que falou para mim: “Por que você está fazendo essas três coisas se você pode ser boa em só uma?” E eu nem sabia que ciclismo é um esporte! Isso foi no final de 2006. Recomendaram então que eu fizesse uma prova de ciclismo pois minha relação peso-potência era boa. E comecei assim. Fiz algumas clínicas para aprender algumas técnicas e acabei ganhando aquela prova. E me despertou uma curiosidade e uma vontade de aprender. E eu ia em competições todo fim de semana e em 6 meses eu saí de iniciante para semi-profissional. E logo já fui vendo as equipes correndo, como era aquilo.

E correndo no meio de 60 e 70 mulheres, eu ia lá para aprender, como uma esponja.

Na minha primeira prova semi-profissional, eu fiquei em 30o no meio das 70. Era para eu ficar feliz mas fiquei arrasada! Falei com meu treinador na época e ele falou que eu ia continuar sim, o que eu estava pensando? Que ia chegar e ganhar minha primeira prova?! Hahaha! Aí eu continuei.

 

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E quais eram seus principais desafios nessa fase?

Antes eu ficava super nervosa. Você vai para a Europa e tem as ciclistas que já estão treinando, tem uma estrutura desde menina. A atual campeã mundial, que acabou de vencer o campeonato mundial de ciclismo em Doha, tem 20 anos. E não é só isso, ela já era bi-campeã junior, com 16 e 17 anos. Eu não tinha noção do que era ciclismo quando eu tinha essa idade! E mais: para vencer essas provas com essa idade, ela está treinando há muito mais tempo que isso, talvez desde os 7 ou 8 anos. Isso te pega quando você vai competir. Ali, antes da prova, você pensa que não está preparada, não tem a quilometragem nas pernas, porquê você se sente o peso disso. Você sabe que não tem tempo a perder, tem que prestar atenção em cada detalhe, tem que estudar o seu esporte. Aprender e não deixar passar nada em branco. Cada oportunidade que você tem de aprender você tem que crescer. E no ciclismo você está aprendendo sempre. Todo dia, você tem uma possibilidade, uma chance. Para mim, tenho uma vontade maior, uma ânsia maior, porque eu não tenho mais 19 anos, então eu estudo mesmo, não basta apenas pedalar. E não tenho como ficar falando do que não existe, do que falta, eu quero ir atrás e correr atrás do que eu preciso. Não podemos culpar os outros pela responsabilidade de ir atrás. Cada um tem que assumir a sua parte.

“Você tem que prestar atenção em cada detalhe, você tem que estudar o seu esporte. Tem que aprender, não pode deixar passar nada em branco. Cada oportunidade que você tem de aprender você tem que crescer. E no ciclismo você está aprendendo sempre. Todo dia, você tem uma possibilidade, uma chance.”

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“Eu sou meu pior inimigo, essa é a minha filosofia, você não pode se comparar com os outros sempre.”

 

Voltando a falar do Rio, como foi o dia da prova?

Eu nunca havia competido em casa, não existe no Brasil uma competição nesse nível. Ainda mais no Rio, que para mim é casa. Ter a minha família inteira e todas as pessoas que participaram do meu desenvolvimento no ciclismo, em um percurso que eu conheço cada buraquinho.

Era uma prova dura e eu estava lá, feliz da vida porque era dura, quanto mais dura melhor.

Ali já tinha uma seleção por conta do percurso da prova. Começando pelo tamanho das equipes, a gente estava com um tamanho menor de equipe, as americanas e as holandesas, por exemplo, cada uma tinha quatro atletas. Então tem uma diferença nisso e imagina também que para elas, desde criança você está pensando que quer ir para as Olimpíadas. Mas você não quer só ir para as Olimpíadas, eu sou a minha maior competição, então eu tenho uma expectativa muito grande de mim mesma. E ainda mais correndo em casa, você não quer chegar lá e fazer feio. Só que nesse percurso qualquer coisa poderia acontecer. Muitas quedas, corrente, pneu furado. O vento que estava, poxa, tinha muita coisa para acontecer. Era estressante mas eu estava tão feliz. Meu marido estava lá assistindo e ele foi para a largada, para filmar, e estavam todas as meninas lá, de cara amarrada, antes da prova. Assim que eu vi ele, eu dei um tchau, toda alegre! E ele “O que você está fazendo?”. A mesma coisa no começo do trajeto, porque estava todo mundo gritando “Bora Flávia!” e eu dando tchau para a galera e eles “O que você está fazendo!?”. Mas eu sabia que naquela corrida, o diferencial seria a ultima subida. E o que tinha de gente gritando para mim ali. Aí até quando você pensa em amarelar você pensa duas vezes porque está todo mundo torcendo por você. Então na frente de todo mundo não dá pra deixar a peteca cair! Por isso foi tudo muito especial. Na hora da chegada, quando você escuta todo mundo gritando vai Brasil, é uma coisa que eu nunca vou esquecer pelo resto da vida, foi arrepiante.

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A prova foi arrepiante para quem estava assistindo também. Especialmente no final, com a queda da Annemiek van Vleuten nas últimas descidas e a Mara Abbott perdendo a vantagem que havia conseguido nas escaladas. Tem uma palestra emocionante da Mara Abbott em que ela fala em detalhes o que foi aquele final de prova e como ela lidou com uma falha. Como atleta, você lida com a falha?

Eu não acredito em falha porquê ninguém é perfeito. A falha nada mais é do que uma oportunidade para você crescer. Se viu que errou, aí você analisa e se prepara para não errar de novo. E às vezes não acontece assim, de conseguir de cara, você vai ter que trabalhar, é um processo. Tem coisa que não é fácil, mas se você olhar tudo pelo lado negativo, você não vai.

Não existe corrida perfeita, não existe. Eu já corri muito com a Mara, eu já fiquei muito em segundo lugar. E já me perguntei muito como fazer para melhorar. Você tem que procurar.

Eu posso pensar que eu falhei, mas se você para pra pensar, você pode entender que não falhou, que isso é uma oportunidade para melhorar. Avaliar o que você fez de bom, o que não fez, e tirar o balanço. Eu sei que o meu processo, para eu chegar onde cheguei, é diferente do processo de qualquer uma ali. Elas já tiveram e tem uma estrutura muito maior e partem de um ponto muito diferente. O mindset delas é diferente pois elas partem de outro lugar, por isso veem falhas onde eu não vejo. Eu não, eu tive que fazer por mim mesma, é tudo eu. Se eu errar, vou procurar ver como posso melhorar, vou falar com quem pode me ajudar, vou me informar com outras pessoas, com outras atletas. Acho que o mindset é esse, você não pode ver a falha como uma coisa negativa, tem que usar isso como um degrau para te ajudar a subir. Senão isso te destrói. Eu vou falhar para caramba, mas se você continuar repetindo o mesmo erro, aí sim você não está crescendo. A gente é que joga nosso próprio joguinho na nossa cabeça. Você precisa tirar da onde não tem para acreditar que você é capaz. Eu tive que fazer isso. Cada vez que você erra você tem uma oportunidade de melhorar. Ali tem que agarrar com unhas e dentes.

Para terminar, falando um pouco do cenário do Women’s World Tour 2017. Já foram anunciadas as provas que vão ocorrer no ano que vem e houve um aumento significativo no número de provas e de dias de competição feminina. Isso é uma das medidas adotadas pela UCI para aproximar os números do ciclismo feminino aos do masculino, já que a diferença em termos de visibilidade, patrocínios e prêmios é gritante. Mas muita gente vem criticando a forma como essas medidas estão sendo adotadas, pois ao mesmo tempo em que cria uma oportunidade para as equipes, não houve tempo para as equipes menores se prepararem, terem condições de participar de tantos eventos. Como você vê esse cenário, pensando até mesmo na equipe que você faz parte?

É complicado mesmo. O sistema que criaram tem uma boa intenção mas estão criando uma barreira para as equipes de médio porte. O que acontece é que há um apoio para as 10 melhores equipes. Só que para você ser uma dessas 10, você já teve que receber muito investimento, essas equipes já tem dinheiro, já estão lá, não são as que precisam de apoio para participar. As que não estão nas top10, como vão pagar os custos da participação em todos os eventos, como vão sustentar? Isso tende a fazer as coisas continuarem como estão e machuca o esporte. Você ajuda de um lado e atrapalha do outro e o que está acontecendo é que não há mais equipes intermediárias, apenas as muito boas. É um sistema que segura as equipes pequenas lá embaixo.

 

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E a conversa foi longe, com direito a bate-papo com o Daemon Cycling e tietagem geral.