Cena

5 coisas que aprendi ao escrever para mulheres

Publicado em 21/05/17

Foto: Diego Cagnato

Por Adriana Vojvodic

Comecei a escrever para mulheres há um ano.

A escrita já fazia parte da minha vida há muito tempo. Como advogada e pesquisadora, aprendi e desenvolvi bastante a forma de escrever um texto estruturado, buscando mais e mais usar uma linguagem clara e objetiva, sem [tanto] advogadês, cuidando para que cada parágrafo contivesse apenas as informações necessárias para a construção do meu argumento. Frases desnecessárias sendo deletadas sem dó.

É um aprendizado, um treino mesmo, escrever.

Aprende-se testando, escrevendo, reescrevendo e lendo – lendo muito. Lendo e absorvendo os textos de pessoas que admiro por sua capacidade de expressar com simplicidade uma ideia muitas vezes complexa.

[Pausa para o merchan: recentemente até escrevi sobre como escrevo, neste projeto em que pessoas que trabalham com a escrita contam como desenvolvem seu processo de produção. Vale a pena conhecer].

Voltando.

Mas uma coisa era escrever textos técnicos, embasados sempre em leis ou opiniões legais, destinados a publicações acadêmicas ou para atender a demandas de clientes em processos ou projetos.

Outra foi começar a escrever para me comunicar. E, no caso, direcionando a fala a mulheres, sobre assuntos que quase sempre me tocam pessoalmente. É quase um diálogo direto e no início houve um momento tela azul pois descobri outro tipo de escrita.

Porque para escrever temos que escolher palavras (oh!) e elas não só revelam as ideias que estão na nossa cabeça, a mensagem que queremos passar, mas elas efetivamente constroem o seu público e as pessoas que você consegue atingir. Ao mesmo tempo que elas revelam suas ideias pré-concebidas e sua visão de mundo, elas definem quem as lê. E isso não é pouca coisa.

Então aqui vão cinco coisas que aprendi ao escrever para mulheres e sobre mulheres. São aprendizados iniciais que vou refinando cada vez mais, a cada novo texto e nova ideia que tenho de construir. É um processo que não termina.

#1 Não generalize

Ainda que você seja uma mulher, você (e nem ninguém) não é a régua do mundo. Logo de início tive que parar, dar dois passos para trás e me perguntar: peraí, mas de que mulher estou falando? De mim e de minhas amigas? Do meu clubinho? De mulheres mais velhas ou mais novas que eu? Elas são brancas, negras? São pessoas do meu círculo social ou de contextos que não conheço ou não convivo? Como falar com “as mulheres”, se nem sei de quem estou falando? Elas são fortes, frágeis, corajosas ou estão com medo? Force-se a ir um pouco além do seu umbigo.

#2 Os estereótipos (ainda) estão a mil

“Mimimi”, “deixa de preguiça”, “deixa de moleza”. A gente custa a acreditar, mas ainda tem gente achando que é assim que se fala com mulheres. Cuidado. Isso revela muito sobre seu machismo (mesmo se você for uma mulher).

#3 Não é porque é uma mulher que preciso concordar

Escrevo sobre mulheres, para mulheres, promovendo e incentivando projetos femininos. Isso não significa que qualquer projeto feminino é interessante e que vou ou devo endossá-lo. Não significa que qualquer texto de autoria de uma mulher é genial. Mulheres são pessoas e, como pessoas, podem ter ideias que considero ruins, retrógradas e machistas. Respeito-as como pessoas, mas não preciso concordar.

#4 Não subestime os interesses

“Mulheres não se interessam por coisas técnicas”, “mulheres não se interessam pelo esporte”, “não querem saber de provas”. Se você nunca trabalhou esses temas, como pode saber? É muito comum encontrar as regras do que falar com mulheres. Bem-estar, horóscopo, regime e moda. Gosto de todos esses temas e de um milhão de outros também. E aí vamos ao dilema, o que começa antes: o interesse ou a disponibilidade de informação? E aí caímos no item seguinte:

#5 Aprenda a se comunicar

Não basta ter “produtos para mulheres”, você precisa saber se comunicar com elas. A linguagem padrão, os “chamarizes”, os “drivers” da nossa comunicação não são neutros. Fazem parte do todo masculino em que vivemos inseridos. Então para falar com mulheres você tem que aprender sim a se comunicar (e com isso enfrentar seus machismos pre-concebidos).

Muitos dos assuntos que são publicados aqui não tem “distinção de gênero”. Saber cuidar da sua bicicleta, entender como ela funciona ou prestar atenção na cadência são temas para todos. Mas as coisas ganham outro sentido se você conseguir dizer “Sim, esse assunto é para você amiga leitora”.

 

#BÔNUS: EU JÁ SABIA!

Esse eu já sabia, mas confirmei que “Aê mulherada!” é um termo que me dá calafrios.