Comece a pedalar

Sobre equilíbrio, compulsões e a bike

Publicado em 06/03/17

A maravilhosa Camila

Por: Camila Gadelha

Uma vez li no banheiro do King of the Fork, um café dedicado à ciclistas aqui em São Paulo, que viver é igual andar de bicicleta – é necessário manter o equilíbrio. Essa frase ficou presa em mim e tentei, algumas vezes, decupar seu sentido até entender direito o que significava me manter equilibrada e, principalmente, como fazê-lo.

Sou uma pessoa de excessos. Paixões, vontades, medos, todos lutando por atenção em um pensamento frenético que sempre provocou ansiedades paralisadoras. Eu nunca soube simplesmente pensar nas coisas, o jeito que eu funciono é criando teorias, anti-teorias, hipóteses e soluções, tudo em alguns segundos. Minha cabeça é o Usain Bolt da neurose.

Quando criança e adolescente a natação era a minha maior aliada na tentativa árdua de silenciar pela exaustão esse processo, mas o colégio atrapalhou a minha semi-promissora carreira de nadadora e logo depois algumas questões de saúde me ajudaram a encontrar na comida o prazer e acolhimento que eu precisava aos 16 anos.

Não vou mentir, os carboidratos foram grandes companheiros. A alegria de abrir uma sacola do Mc Donald’s era comparável às emoções de um abraço. Por alguns segundos era só eu, o picles e as batatas-fritas. Foi assim que cheguei aos 150 quilos antes dos 22 anos.

O amor de um primeiro namorado me ajudou a recuperar a coragem de me cuidar, mas situações desesperadas exigem medidas extremas, então fiz uma cirurgia bariátrica e emagreci 75 quilos. Só que não adianta operar o estômago querendo consertar a cabeça. A compulsão alimentar tem sido o meu recurso de prazer momentâneo desde sempre e me livrar disso se mostrou mais difícil do que eu imaginava.

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Durante um tempo, com a ajuda do Roller Derby (um esporte de impacto praticado de patins) e dos engasgos provocados pela redução de estômago, eu consegui manter a situação sob controle. Mas um acidente no Campeonato Brasileiro acabou com o meu tornozelo, que depois se quebrou mais duas vezes em dois anos.

Foi no ano passado que a maldição-da-perna-oca se rompeu e eu me mantive com os ossos inteiros, porém o estrago desse tempo parada foi grande. Minha compulsão alimentar se mostrou forte, engordei mais de 30 quilos, perdi coordenação motora e a confiança no meu corpo. Assistia com certa tristeza as pessoas tomando São Paulo com suas bicicletas, enquanto eu mal conseguia andar sem mancar.

Uma dessas pessoas se chamava Diana, garota brilhante que havia conhecido há uns anos e sempre me deixava impressionada com sua autonomia, força e estilo, cruzando por aí de bike por todos os lados. A Diana iria falar sobre sua experiência com a bicicleta no Atelier da Georgia, junto com a Thais Moura, mais duas gurias fantásticas que foram parte importante nessa minha jornada.

Bike também é coisa de mina

O rolê de bike no dia do Bike também é coisa de mina

Até então, andar de bicicleta na cidade parecia coisa de gente magra e corajosa, confiantes em seus tornozelos inteiros, coisa que eu definitivamente não era. Mas no encontro com a Diana e a Thaís essas imagens se quebraram. Elas e as outras meninas que participaram da conversa me fizeram ver que os medos de cair, de subir e de suar eram meio que parecidos entre todas ali, mesmo as mais experientes.

A teoria é diferente da ação, então no dia marcado para todas darmos um rolê por Pinheiros eu lembro de pensar em desistir umas cinquenta e duas vezes. Mas peguei um capacete, chamei um Uber Bike e fui encontrar com elas e ver no que dava. Repetia na minha cabeça que se eu ficasse cansada era só parar e pedir uma cerveja em algum lugar.

Mas eu não parei. Fomos todas cantando Justin Bieber e encontrando rapazes bonitos pelo caminho da ciclovia, acordando músculos adormecidos e sentindo o vento no rosto, que secava a boca incapaz de parar de sorrir. A conexão de todos os nossos anseios se transformou em coragem coletiva e criou uma energia indescritível.

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Minha sensação foi de reencontro. Olhava meus braços e pernas, entendendo e apreciando seus esforços, mesmo os mais vacilantes e dolorosos. Ali naquele passeio eu voltei a me entender como uma pessoa completa, e não mais como uma mente ansiosa apartada de um corpo pouco hábil.

Hoje a frase que encontrei no King of the Fork faz muito mais sentido. Percebi que a lógica da vida para manutenção do equilíbrio é a mesma da bicicleta; manter-se em movimento.

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Desde então tenho traçado algumas metas pequenas e comemorando cada uma delas. Subir uma ladeira. Chegar em um lugar. Adicionar um novo esporte à minha recuperação. Esse progresso e a sensação de ser uma coisa só me ajuda a fazer escolhas melhores, e a bicicleta me ensina a prestar atenção no caminho e me manter presente.

Minha luta contra a compulsão alimentar não terminou e nunca vai terminar, é um esforço diário que vai ficando cada vez mais fácil conforme eu vou aceitando o meu próprio funcionamento. Volta e meia eu ainda faço escolhas ruins, a diferença é que hoje em dia elas não me fazem odiar meu estômago ou qualquer outra coisa que fica ali abaixo da minha cabeça. Hoje sei que sou meu corpo, minha mente e meu movimento, e assim vou seguindo, em equilíbrio.

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