Cena

Elas vêm em Pelotão

Publicado em 27/09/16
Renata e o Pelotão das Minas no dia de estréia do kit // Fotos: Leo Cavallini & Bárbara Bombachini

Renata Mesquita e o Pelotão das Minas no dia de estréia do kit // Fotos: Leo Cavallini & Bárbara Bombachini

Quem acompanha as provas que andam acontecendo na cidade de São Paulo certamente já viu o grupo de mulheres de jersey roxa que sempre está em peso na linha de largada. Elas nunca passam despercebidas. Sempre super alegres, incentivando umas às outras, estabelecendo estratégias para as provas, torcendo. Não tem como não se divertir do lado delas.

É o Pelotão das Minas, um grupo de pedal de mulheres encabeçado pela Renata Mesquita, Embaixadora da Specialized Pedal Urbano. Nessa nossa conversa ela contou como o grupo foi criado, cresceu e se tornou uma rede de mulheres que se ajudam e se incentivam nos treinos e fora deles.

Adriana: Quando e porquê começou o Pelotão das Minas?

Renata: Ele começou em janeiro de 2015. Começou quando me tornei embaixadora da Specialized, associada a loja Pedal Urbano. Uma das atividades sugeridas para as Embaixadoras realizarem está a criação de um pedal semanal. Não é algo obrigatório, mas era uma sugestão que eu gostei de cara. Eu já pedalava com amigos, já treinava na ciclovia, então foi muito natural eu acatar essa sugestão. Criamos juntos algo que fosse a minha cara e a cara deles também, afinal é uma parceria. Não queríamos fazer um pedal noturno porque isso não tinha nada a ver comigo e também demandaria uma estrutura que não queríamos ter. Além disso, um grupo como esse não existia.

Qual é a proposta do Pelotão? Como ele funciona?

O Pelotão sempre se propôs ser algo intermediário, que não é um treino super puxado, não tem planilha ou técnico, mas também não é um passeio. Era uma demanda que existia e não havia ninguém que fizesse isso. Começamos ali e deu muito certo. É algo que eu gosto muito de fazer. É um pedal que acontece toda quarta-feira de manhã, na ciclovia da Marginal Pinheiros. Nos encontramos às 7h na entrada da ponte Cidade Universitária e rodamos por mais ou menos 1:30h. Toda quarta estou lá e é aberto para quem quiser pedalar junto (mas é bom dar uma olhadinha nas recomendações lá na página, para entender como funciona). O pedal só não acontece quando chove.

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Quantas meninas pedalam ou passaram pelo Pelotão? O grupo foi aumentando com o tempo?

Foi aumentando, lógico. Do final do ano passado foi crescendo bastante. No começo iam poucas. Ninguém conhecia ou sabia como funcionava. Mas aí foi crescendo, no boca a boca. Tem algumas que participam desde o comecinho, mas é lógico que tem uma alta rotatividade. Não sei exatamente o número de meninas que já pedalaram com a gente na quarta-feira, mas imagino que por volta de 70. Tem algumas que vão uma vez só, mas a grande maioria volta e fica super empolgada. Tem um perfil de menina que aparece para pedalar com a gente.

Que perfil é esse?

Não são iniciantes, pois deixo bem claro que não é para quem não tem condicionamento ou que não tem nenhuma habilidade e começar lá. Pois andamos em pelotão, uma vai na roda da outra, então um pouquinho de conhecimento tem que ter. E tem o ritmo, que não andamos em um ritmo super puxado, mas não é passeio. É um treino. Giramos a uma média de 27km/h. Agora a maioria está daí para melhor, em termos de condicionamento. Se chega uma menina nova, normalmente fazemos uma primeira volta mais fraquinha e depois mais forte na segunda. Mas as meninas vão ganhando condicionamento, mesmo as que chegaram mais despreparadas. Evoluíram para caramba, estão indo pra estrada. Pois a gente acaba combinando outros treinos não oficiais em outros dias da semana. A gente está sempre por aí: estradas ou na USP. Todo fim de semana pegamos estrada por exemplo. As meninas ficam com o olho brilhando, querem ir pra estrada, nunca foram. Aí quando eu vejo que tem alguma que já está mais preparada, combinamos uma ida ao Pico do Jaraguá. É mais perto, mas tem que ter um pouquinho de habilidade, pois tem as saídas para entrar na Rodovia dos Bandeirantes, tem que estar mais esperta, ter prática de andar na rua pois atravessamos a ponte, pega saídas, meio perigoso. Normalmente as meninas que começam são aquelas que já pedalavam outras bikes mas acabaram de comprar uma speed e querem começar. Por isso é um pedal que não é um passeio mas também não é um treino puxado. E o legal é que as mais experientes acabam passando várias dicas, ajudam uma a outra, a convivência no grupo é muito gostosa. Começar no ciclismo tem muita coisa para aprender e dentro desse grupo tem muita informação, muita mesmo.

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Como essa informação circula?

Nos encontros de pedal e no nosso grupo de whatsapp. É um daqueles grupos que tem trocentas mil mensagens por dia. E todas se ajudam por ali. O grupo é um super fórum de discussão, são 53 meninas no grupo. Falam sobre o treino, sobre as assessorias que fazem, produtos, nutricionista, mil coisas.

Como você vê o Pelotão das Minas?

O grupo tem muitas características, e uma delas é que é um grupo que se ajuda muito. Em todos os sentidos, não fica só no pedal. Quando uma precisa de alguma coisa e fala no grupo, elas sempre se ajudam. Quem entra no grupo e não tem muito isso, acaba nem se identificando. Ninguém ali vai deixar ninguém na mão. Acho que é por isso que deu certo. O grupo é heterogêneo, tem mulheres de diversas idades, de níveis sociais e de força para pedalar. Por isso sempre vai ter alguém que se interessa pelas mesmas coisas que você.

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Homens querem ir no Pelotão? Pode?

Tem tanta coisa já para grupos mistos que queríamos fazer alguma coisa bem exclusiva para mulheres. Mas de vez em quando eu recebo algumas mensagens de homens perguntando se podem ir, eu nunca falei expressamente “não, não pode”, mas eu explico a proposta e se ainda assim quiserem ir, então que incentivem alguma mulher que conheçam, amiga, namorada, para ir junto. Assim faz mais sentido a participação deles. E às vezes também aparecem nos treinos amigos meus, ou mesmo das meninas, e tudo bem eles irem. A única coisa que falo é para eles ficarem no final do pelotão, não interferirem no meio ou mesmo puxar. Senão o pedal muda de cara mesmo, vira deles. E tem outra coisa. Quando não tem nenhum homem e não estamos puxando muito, as meninas começam falar um monte de coisa que nunca falaria se não estivéssemos só entre mulheres. Um monte de besteira, abobrinha ou mesmo assuntos que elas não falariam se tivesse homens junto. E aí é que a gente se diverte mais! Por isso eu acho legal quando não tem nenhum homem. Cria um outro tipo de ambiente.

O que você percebe de diferença nesse ambiente apenas de mulheres?

As mulheres se soltam mais, falam besteiras, baixarias, fazem comentários que não fariam na frente de homens. Falam de coisas de mulher e que interferem nos treinos, menstruação por exemplo, alimentação. Antes da prova Nove de Julho, quando eu convidei algumas atletas para participarem do Pelotão e passarem algumas dicas para a gente, teve por exemplo uma conversa com a Karina Grande que foi incrível pois rolou um papo de menstruação, de como ela afeta a performance. Ela é super técnica, então deu várias informações tão bacanas que aprendemos muito com ela. A Paula Proença também teve um dia no Pelotão e nós não sabíamos, mas ela estava grávida. E aí teve um super papo sobre mulheres pedalarem na gravidez. São assuntos que fazem parte da vida de quem treina mas que tem muito tabu, não se fala muito sobre isso. E esse tipo de papo e informação só rolam quando estão só mulheres.

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E as meninas que vão com mais frequência evoluíram muito?

Para caramba, estou passada!! Quando começou eu era a mais forte do grupo, hoje estão dando na minha cabeça! Estou em crise hahahah! Brincadeira, mas sim, é impressionante!

O Pelotão tem uma característica interessante porque é um grupo que foi crescendo e conseguiu não se dispersar, mesmo com algumas avançando muito no treinamento e sempre com gente nova chegando. Como acontece isso? Como manter um grupo com perfis tão diferentes?

Essa era uma preocupação no começo, como manter o um grupo que depende tanto do desenvolvimento e do perfil de condicionamento de cada uma? Sempre vai ter meninas novas chegando, mas o que aconteceu é que as mais antigas não saíram, elas continuaram. As meninas mais fortes, depois de um tempo, começaram a entrar em assessorias, então elas tem os treinos delas, nos outros dias da semana. Às vezes eu até vou junto. Aí o combinado é que na quarta-feira, que é o dia oficial do Pelotão, é o pedal de incluir todo mundo. E elas ficam super felizes de ajudar as meninas mais iniciantes, então elas sabem que se numa quarta-feira chegar alguém mais fraca, a gente vai em um ritmo mais tranquilo. De vez em quando acontece de numa quarta só irem as mais antigas, aí dá pauleira! Nos fins de semana, por exemplo, quando vamos para a estrada, começou a acontecer esse problema de diferenças muito grandes de nível de pedal. Então combinamos de fazer sábado mais fraco e no domingo mais forte.

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Vocês estão indo no sábado e no domingo para a estrada?

Olha, já tem tanta menina no grupo que já dá para fazer dois grupos, já dá para fazer tudo! Elas mesmas se organizam e quanto começam a falar do pedal do fim de semana já combinam como vai ser o ritmo. E quando tem mais meninas que são bem iniciantes, um grupinho mesmo, aí eu e mais alguém nos dispomos a acompanhá-las. Até porque quem está começando, além de ter menos condicionamento, também tem menos habilidade para andar na rua, não sabe pegar as saídas para a estrada. Tem que ir aprendendo. Eu faço isso com o maior prazer, curto pra caramba. Só não dá para ficar fazendo toda hora senão eu mesma perco o ritmo, afinal tenho que treinar também! O negócio é incluir todo mundo. Mas isso fomos aprendendo aos poucos, esse jeito de organizar os pedais contemplando todo mundo.

Como é esse “aprendizado” das mais novas? Além do treino básico tem treino de técnica ou mesmo de mecânica básica para saber lidar melhor com a bicicleta?

Isso começou já no ano passado. Fizemos curso de mecânica básica, e chamamos convidados, normalmente ciclistas profissionais, para ensinar técnicas básicas como arrancadas, sprint. Eu vejo o que consigo eu mesma passar para elas, com base na minha experiência. O que não tenho de bagagem vou chamando convidados para participarem dos nossos treinos e é sempre incrível. Com isso também fui aprendendo muita coisa.

Ultimamente muitas tem participado de provas para ciclistas amadoras e tem sempre um monte de jersey roxa passando por aí! Como foi essa evolução?

Eu tento incentivar a participação delas em provas. Eu sempre aviso, chamo. A prova de Indaiatuba de 1o de maio, acho que foi um marco para a gente. Porquê é uma prova já clássica organizada pela Federação. E até lá, nenhuma menina tinha corrido provas organizadas pela Federação, apenas provas exclusivamente para amadores. E as meninas estava meio receosas de participar pois falando assim, que vão correr a mesma prova que a elite, elas não estavam muito à vontade para tentar. Porque no feminino tem essa questão das categorias, o ciclismo feminino não tem tantas categorias quanto o masculino. Então normalmente nas provas que a Federação organiza, as provas clássicas, as amadoras tem que correr junto com a elite. Raramente separam as amadoras, como fizeram com a Nove de Julho. Aí nessa, de Indaiatuba, havia uma categoria Open Speed feminino. E eu pilhei as meninas! E foram a Vitória Lopes e a Vanessa Gusmão. No dia fiz o apoio para elas, levei comida. Elas estavam nervosas, não sabíamos quem eram as outras competidoras. Normalmente conhecemos as participantes das competições amadoras, mas lá não sabíamos quem estava competindo, o que esperar. E nós três falamos bastante sobre estratégia, quem ia trabalhar para quem. E elas deram na cabeça de todo mundo, deram o sangue! Pegaram pódio, primeiro e segundo lugar!

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E isso motivou as meninas a participarem de outras provas?

Nesse dia, enquanto elas corriam eu fui fazendo a narração para nosso grupo, estavam todas acompanhando e vibrando. Isso encorajou grande parte delas a participarem da Nove de Julho, da Gear Up e agora do Criterium da Shimano Fest. Nosso ciclismo está tão carente, precisamos dessas coisas e da participação das amadoras. E bem ou mal, quando temos provas que juntam amadoras e elite acontece uma aproximação natural, conhecemos melhor as ciclistas profissionais, passamos a acompanhar o que elas andam fazendo e as provas que estão participando. Só assim criamos um ambiente de interesse pelo esporte, colocando o público lá para ver. E quem é parte relevante do público? Mulheres que pedalam, que vivem isso, que se empolgam vendo uma prova. Então essa participação nas provas é muito mais do que só ir lá e correr, é conhecer todo o ambiente do esporte no Brasil. Isso eu acho muito legal e por isso gosto de incentivá-las também.

E quais são os planos futuros para o Pelotão?

Difícil falar! Estamos em uma fase muito boa e até agora as coisas que aconteceram foram se desenvolvendo sem um plano muito rígido. Eu vejo o Pelotão continuando no que estamos fazendo, se consolidando mais. Uma coisa que as meninas sempre me pedem é fazer mais uniformes ou até outros produtos. O que eu percebi é que quando lançamos o primeiro uniforme do Pelotão a gente deu uma outra cara para o grupo, virou algo a mais. As meninas se reconhecem e isso é muito legal, deu uma cara de grupo mesmo, uma identificação. Isso nas provas é demais!

 

Para saber mais sobre o treino do Pelotão, veja aqui.