Cena

Elas querem mecânica

Publicado em 21/07/17

As alunas do curso de mecânica, a equipe Parktool e Bike123. Na fileira de baixo: Sonia Regina de Souza,Luiza P. Costa Carvalho,Vanusa Lemos de Toledo e Leticia Veiga Ruiz. Na fileira de cima: Liliane Gonçalves Travanca, Katia Soares de Assis, Maísa Kawata, Marcia Doin, Andressa Gomes de Souza e Natale Cavaçana // Foto: Maísa Kawata.

No mês de junho 10 mulheres participaram do primeiro curso no Brasil de capacitação de mecânicas de bicicleta, numa turma formado exclusivamente por mulheres. Elas fizeram parte do programa de bolsas lançado pelo pelo Bike123, uma plataforma de focada em soluções para mecânica de bicicleta que conecta técnicos com ciclistas, em parceria com a Escola Park Tool.

Infelizmente não é uma surpresa identificar o número reduzido de mulheres atuando profissionalmente no mercado de bicicletas. Especialmente nas áreas mais técnicas, como desenvolvimento de produtos ou nos serviços de mecânica, este número é ainda mais reduzido. Um cenário que, no Brasil, repete o padrão encontrado em outros países.

Por isso é que a iniciativa proposta pelo Bike123 chamou tanto a nossa atenção. “Diante do reduzido número de mulheres atuando no mercado de bicicletas, esse programa de bolsas visa aumentar o número de profissionais nessa área, criando um ambiente propício para que mais mulheres possam entrar no mundo das bicicletas.”

As aulas de mecânica da turma feminina, iniciativa do Bike123 e da Escola Parktool // Fotos: Divulgação

Uma das justificativas para a abertura de uma turma exclusivamente feminina estava nestes números. No Brasil a indústria de bicicletas é composta majoritariamente por homens. Em mais de 400 estabelecimentos comerciais destinados ao ciclismo no Brasil, menos de 1% dos profissionais técnicos são mulheres. Em toda cadeia de produção de bicicletas, desde o desenvolvimento de produto até a equipe de vendas, o número de mulheres atuantes é muito baixo.

As mulheres que participaram deste curso foram escolhidas após um processo seletivo que contou com 54 interessadas, de 22 cidades e 8 estados do Brasil. A procura, muito maior do que as 10 vagas oferecidas, dá uma medida da demanda reprimida existente no meio.


Selecionadas e prontas para iniciarem as aulas, um encontro prévio foi marcado, na véspera do início do curso. Nele as apresentações individuais foram feitas e a turma se conheceu, já que o tempo de aula não seria usado para conversas. A expectativa das alunas era grande, todas interessadas e claramente comprometidas com o curso.

Algumas já atuando no mercado de bicicleta, como fitters ou assistentes de mecânica, outras com participação ativa na comunidade de ciclistas de suas cidades, todas compartilham a centralidade que a bicicleta pode tomar na vida das pessoas. Não um acessório ou um passa-tempo, a bicicleta é vista por todas como uma ferramenta importante de seu modo de viver. E justamente por isso elas querem se aprofundar.

O curso durou oito dias e foi um trabalho intenso. Nos relatos que fizeram após as aulas, a avalanche de informações e a necessidade de processar todo aquele conhecimento técnico foram comentários constantes. A cada conhecimento adquirido, uma conquista.

Após o curso, perguntamos às alunas quais foram seus principais aprendizados e quais foram os impactos de se organizar uma turma feminina para estas aulas.

 

>> Aprendizados


Dentre os objetivos, o curso prepara as alunas para desmontar e montar uma bicicleta inteira. “Realmente foi incrível ver tantas peças se desconectando e reconectando novamente e fazê-la funcionar de modo coerente e acertivo… foi muito legal”, disse Liliane Travanca, uma das alunas.

“Houve um aprendizado maior de que, mesmo eu – que não tinha conhecimento sobre mecânica, nem habilidade manual -, descobri que é possível sim aprender sobre a bicicleta e que, de fato, sou apaixonada pela bike. Adorei desmontar e montar a bicicleta, conhecer suas partes e estar ao lado de mulheres que compartilhavam o mesmo sentimento” contou Maísa Kawata.

 

>> Mulheres na mecânica


“O fato de as aulas serem só para mulheres impactou de maneira positiva ao mostrarmos que, sim, mulher tem vontade e habilidade para ser mecânica, e mecânica bastante competente.” disse ainda a Maísa. “A turma não poderia ter sido mais bem escolhida”.

“Penso que o ambiente foi muito positivo, acredito que o fato de só ter alunas mulheres permitiu que não houvesse pressões extras, como homisplicando ou homiajudando antes mesmo de você pegar a ferramenta”. Contou a Marcia Doin. “E aqui quero fazer uma observação sobre a condução do curso, confesso que eu tinha um receio de que o curso fosse conduzido de forma “café com leite”, mas não passou nem perto disso. O Henrique Zompero, [professor e dono da Escola], foi bastante rigoroso, em nenhum momento achei que estivesse cobrando menos de nós, do que ele cobraria de outra turma, me senti respeitada. (E é uma pena que isso não seja a regra e que mereça menção).”

 

>> Por que é importante mulheres saberem de mecânica?

Para Liliane, “Sobre mecânica de bike, as mulheres deveriam saber o mínimo útil para o dia a dia, principalmente as que pedalam,e podem ser pegas de surpresa numa situação de necessidade.”

A autonomia aqui é o tom das respostas. “Penso que as mulheres deveriam se interessar, ao menos, em ter autonomia na manutenção da própria bicicleta, saber fazer remendos e trocas de câmaras e ajuste de freios e câmbios.Para além da auto suficiência, as mulheres deveriam saber tudo o que elas quiserem sobre mecânica de bike”. completou Márcia.

Para quem quiser saber um pouco mais do que aconteceu no curso, Maísa Kawata fez um relato dia-a-dia das suas impressões e aprendizados. Vale a pena acompanhar o que estas mulheres farão daqui para frente.