Treino

Corrida para ciclistas

Publicado em 24/08/16
Foto: Things organized neatly

Foto: Things organized neatly

Para alterar tipos de treino ou para aproveitar aquele dia que parece que vai chover a qualquer momento, quem nunca pensou em correr para variar?

Mas são muitos os ciclistas que passam pela mesma experiência: correr parece prejudicar o desempenho no pedal. Será isso mesmo?

A Thais Moura, que já falou por aqui sobre o início dos treinos e sobre dor, deu dicas super valiosas de como incluir a corrida no seu treino, na dose certa para não atrapalhar.

«« Corrida é um bom exercício para ciclistas?

É sim, com algumas ressalvas. Se o ciclismo for a minha prioridade, é bom pensar na corrida como uma modalidade que conviva numa boa, isto é, sem me desgastar tanto que não dê tempo de descansar para o próximo dia de pedalar.Se já estiver acostumada com a corrida, pode brincar com o volume e a intensidade. Senão, é melhor dedicar tempo e energia à base que favorecerá uma prática segura durante o correr, para o pedalar e o viver.
Do ponto de vista metabólico a corrida pode ser uma boa atividade de recuperação ao estimular a circulação e os impulsos nervosos com mais suavidade.

«« Quando corro percebo que o meu pedal fica prejudicado, parece que não aguento tanto. Por que isso acontece? Os grupos musculares não são diferentes? 

Os grupos são os mesmos, estimulados um pouco diferente por mudar o plano de sentado para em pé, mas ambos são impulsionados pela cadeia anterior de membros inferiores, sua frenagem é obra da posterior e estabilização dos grupos mediais e laterais. Exercícios que desgastam apenas passam a ter efeito inflamatório, e aí o que era para ser bom reforça a fadiga.

«« Se tenho a bicicleta como meu treino principal (duas a três vezes por semana, por exemplo), o que é uma quantidade indicada de corrida?

Diria uma ou duas vezes de corrida leve a moderada e curta. Leve a moderado não quer dizer enfadonho, pois se for possível identificar ritmos e meu condicionamento me der autonomia para correr rápido cansando pouco, tenho aí uma corrida curta, gostosa, acelerada o bastante para ser leve a mim que estou acostumada.

Foto: Hey Woman

Foto: Berlin Bienalle 2016 por hey woman!


«« Por conta de meu condicionamento em treinos longos de bicicleta, a corrida parece algo mais fácil e acabo exagerando. Qual é a intensidade ideal de corrida para que não haja interferência no meu desempenho na bicicleta?

Toda saída para correr, menos acelerada que o pedalar, será um exercício para praticar o controle de ritmo. Até que eu identifique o que é muito, devo experimentar outros, inclusive desacelerar. Se isso ainda não tiver sido feito, não há referência para saber qual é a medida, e outras não vão demonstrar efeito se for esse o caso. Em todo caso, parar e observar como tenho variado e de que outras formas posso variar minha corrida, é um bom ponto de partida a ser sempre considerado. É uma direção de pensamento que preserva, protege e portanto possibilita fazer o que quiser.
Se não for pelo parâmetro subjetivo do esforço, se tiver dados de um exame ergoespirometrico, escolho manter faixa de frequência confortável, não ventilatória (não ofegante).

«« Corrida é um exercício de alto impacto para joelhos e articulações. Como me proteger para não me machucar?

Antes de pensar em mais um exercício, um complementar para proteger, primeiro evito machucar. E para isso, é bom tudo o que falamos até agora. Correr com respeito ao ritmo de cada dia, vontades, prioridades, para que possibilite o acúmulo da prática, que torna essa atividade segura a medida que é familiar, conhecida, e o organismo responde ao estímulo de forma positiva. Um posicionamento eficiente também protege desde o início, é pura física. Tronco forte permite bons movimentos de braços e pernas. Os funcionais são muito bons para isso.

«« E a preparação pré e pós treino: vale a mesma coisa para ciclismo e corrida (em termos de nutrição)?

Pelo viés de disponibilidade de energia, vale igual para os dois, devo estar sempre alimentada e hidratada, para começar a corrida ou o pedal assim, e não somar desgastes ao final. Vale ter energia para gastar antes e não chegar (ou demorar para chegar) nas reservas, e se alimentar depois para repor o que foi consumido. Ou seja, comer sempre: antes, durante se for o caso, e depois. A energia primeiro consumida é a circulante, do que comemos por último. Depois a muscular e então a hepática, quando já sentimos super fadiga, dor de cabeça, gosto ruim na boca, sonolência. Melhor não chegar aí, é estressante para todos os sistemas.
Agora, a medida muda de acordo com as especificidades. Se for mais longo, mais intenso, precisa de mais energia.Mas não somos uma ciência exata. Sabemos como funciona, mas não basta calcular e dosar o que entra e sai, é importante harmonizar todos esses pontos dessa rica conversa que começamos aqui e vamos continuar.