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Ana Paula Polegatch e as competições na Europa

Publicado em 23/11/16

Ana Paula Polegatch, campeã brasileira de contrarelógio em 2014 / Fotos: Arquivo pessoal

Dona de um super currículo de atleta, ela foi campeã brasileira de contrarrelógio em 2014, representa o Brasil em competições internacionais, Jogos Panamericanos e Mundiais. Ana Paula Polegatch corre hoje pela Memorial de Santos e nesse ano passou três meses competindo na equipe italiana Servetto Footon, participando de nada menos do que o Giro Rosa, o Tour da França e o Tour de Ardeche.

Ana é super carismática e, além dos treinos e provas, dedica tempo para mostrar, especialmente por meio do Facebook e Instagram, o que significa ser uma ciclista profissional, sua rotina de treinos, as atletas e os outros profissionais envolvidos no seu dia-a-dia. “Tem muitas meninas que não fazem isso, não mostram o que fazem porque acham que isso é uma coisa de gente que “se acha”. Mas não é isso. Faço porque é importante essa aproximação das pessoas, que elas vejam e entendam o que faço como atleta, o que significa ser ciclista. Então essa preocupação com as mídias sociais é uma parte do meu trabalho. Ainda mais no Brasil, é um jeito de mostrar o que é o ciclismo profissional.”

Ela sabe que essa dedicação a um contato maior com o público não pode ser feito de qualquer maneira. “Tenho que ter muito cuidado com o que falo, o que mostro. Tenho muitas crianças me acompanhando, então você é uma inspiração para as pessoas e com isso vem uma responsabilidade maior, sabendo de toda essa influência”. De fato, não é pouca coisa.

Na nossa conversa vamos migrando para sua experiência na Europa e Ana já começa mostrando uma visão bem objetiva de quem entende como funciona o esporte e de como se colocar nele. Mesmo apontando as falhas e sendo bastante crítica em relação ao cenário brasileiro, ela não liga o módulo reclamação.

Pelo contrário. Ela vê as coisas como são e trabalha duro para alcançar cada vez mais. Daí sua ida à Itália por três meses nesse ano. Depois da notícia de que não iria às Olimpíadas do Rio, Ana mudou o foco do ano e buscou a equipe italiana, com quem havia entrado em contato no início de 2016, no Tour de San Luis.

Ana no Mundial Militar na Coréia em 2015

Ana no Mundial Militar na Coréia em 2015

Canela

A mudança de planos foi um tanto rápida, não? Como foi sua ida à equipe italiana?

Ana

Foi um pouco rápida essa mudança, o contato com eles havia começado em janeiro, depois do Tour de San Luis, mas não tínhamos avançado muito. Aí em maio veio mesmo o convite oficial e tive que fazer as coisas muito rapidamente. Cheguei na Itália na véspera do Giro Rosa, literalmente. Passei três meses por lá competindo por uma das equipes pro-tour,a Servetto Footon, que só participa das provas do Womens World Tour. Corri o Giro Rosa, o Tour da França, o Tour de Ardeche e algumas outras provas de um dia apenas. Isso mudou completamente minha visão do que é ciclismo. Infelizmente estamos muito atrás e para andar bem lá fora, temos que ter outro tipo de treino. Não tem como treinar aqui e ir bem lá fora. Os estímulos e parâmetros que temos aqui não se comparam com o pro-tour.

 

Canela

O que tem de mais diferente?

Ana

São muitas diferenças. Acho que a principal são os tipos de corrida. Aqui, nas competições de elite, temos corridas de uma hora, no plano. Lá são corridas de 4 a 5 horas com montanhas. Além disso, o número de competidoras também é muito diferente. Lá o pelotão tem 150 ciclistas em uma única prova, aqui temos 15, 20. Tudo isso com uma postura, uma mentalidade muito diferente das atletas, até durante as provas. Ali o pelotão não se preserva tanto, há uma dinâmica bem mais ativa nas provas e não tem essa de correr na roda e ganhar no final, se poupando ao máximo. Isso é bem cultural aqui, essa ideia de se poupar. Então somando tudo isso, não vejo como ficar um ciclismo forte com esse posicionamento, que é generalizado. Não é uma ou outra pessoa que age assim, é algo que faz parte do nosso jeito de encarar as provas. Mas ainda acho que o principal são as provas. Na hora que as provas começarem a ficar mais fortes, automaticamente as atletas tem que atender a isso.

Mundial Militar de Contrarelógio

Mundial Militar de Contrarelógio na Coreia, 2015

Canela

Isso é possível de acontecer aqui no Brasil?

Ana

Raramente temos provas muito duras. Mas quando temos, poucas atletas competem. Isso acontece porque não estamos preparadas. Não é só um fator que tem que mudar, é todo um conjunto. E é isso que demanda tempo, demora e tem que ter vontade de todos os envolvidos. Claro que não são todas as ciclistas que querem esse endurecimento, pois não conseguem treinar mais porque trabalham também com outras atividades, já que são poucas as equipes que pagam o suficiente para se poder viver do ciclismo. Então é toda uma série de fatores que resultam nesse cenário, não se muda de uma hora para outra. Hoje o que dá mais público são as provas mais curtas mesmo, que são mais fáceis de acompanhar.

Panamericano Contrarelógio, em 2015

Panamericano Contrarelógio, em 2015

Canela

E como foi participar do Giro Rosa? Como são as provas, as ciclistas, o que achou de tudo o que viu e viveu lá?

Ana

O Giro Rosa foi a primeira competição que participei, logo que cheguei. No Giro estava a campeã mundial, na época Lizzie Armitstead, e havia muitas outras meninas se preparando para as Olimpíadas. O Giro dura dez dias, todos duríssimos, com um ritmo muito alto. E fui para fazer o melhor de mim. Ataquei, andei escapada. Todos os dias eu atacava, mas o pelotão não deixava. Me alcançavam. No Giro minha melhor colocação foi 40, de 150 competidoras. Engraçado que as etapas mais duras foram as que eu andei melhor, e fui em vários dias a melhor colocada da minha equipe. Eu nunca havia participado ou me preparado para esse tipo de prova, então foi uma estréia mesmo, em muitos sentidos. É outra coisa participar de uma prova dessas. São 10 dias seguidos de provas, todas andando numa intensidade que você não imagina aguentar. Adorei e pretendo voltar no ano que vem, já mais preparada e chegando antes, podendo ter mais tempo de treino lá mesmo.

Jogod Panamericanos Toronto 2015

Jogos Panamericanos Toronto 2015

Canela

Quais outras provas você participou?

Ana

Competi o Tour de France e o Tour d’Ardeche. Essa é a prova mais dura do ciclismo. A gente subiu 11 mil metros em 6 etapas. É absurdo. Corri com o gás que tinha, nas últimas etapas já estava acabada. Mas eu não podia desistir e não desisti de nenhuma. Esse volume em corridas eu nunca tinha feito. Já treinei muito, mas correndo, competindo, é outra coisa. Se a prova tem quatro horas, então serão quatro horas fazendo muita, mas muita força. Todo tempo pedalando muito. Quantas vezes lá na Itália eu via as meninas subindo chorando, eu algumas vezes subi chorando. Porque eu não aguentava mais. Você está com quatro horas de pedal, pega uma montanha gigante, o pelotão já foi embora, você foi até onde você não aguentou mais, ficou com vontade de desistir, vontade de tudo. É muito comum você ver as meninas subindo e chorando. E aí você olha e pensa que aquela menina do seu lado está sofrendo mais que você, então isso vira uma motivação a mais. Se ela está fazendo isso, então eu também faço. E aí você vai além. Ali todas estão indo além, então porque você não vai também?

Tour de France Feminino, 2016.

Tour de France Feminino, 2016.

Canela

Se sua intenção é voltar no ano que vem, e, como disse, mais preparada, vai ter que trabalhar com esse foco. Como são seus treinos e o que pretende mudar?

Ana

Até ano passado eu estava com um treinador. Nesse ano de 2016 voltei treinar sozinha, já treinei sozinha por muito tempo. Eu já me conheço bem, então é algo que consigo fazer, mas o ideal é sempre ter alguém que te acompanha. Por mais que eu saiba como treinar, é sempre bom ter alguém que te incentiva, que olha de fora. Agora que voltei começo a treinar na 5ways e vamos começar um treinamento focado. E acho que era isso que estava sentindo falta, de um treinador que queira, tanto quanto eu, fazer com que eu ande bem. Não adianta ser só a atleta, o treinador tem que querer fazer você andar junto.

Canela

Você foi campeã de contrarrelógio treinando sozinha?

Ana

É. Desde o começo da minha carreira eu treinei sozinha. Teve um ano que eu tive a ajuda de um amigo, que me treinou muito e me fez dar um salto. E ele não só me treinou mas me ensinou como me treinar. Com os anos você vai adquirindo uma bagagem, vai juntando uma dica aqui, conhece mais pessoas que vão te ensinando coisas que te acrescentam. Hoje eu sei treinar, como ficar forte, porque são 13 anos aprendendo. Aprendo comigo e com quem está em volta. E é bom ir variando. Às vezes quando um treinador já te ensinou tudo, não é que ele não seja bom, mas apenas que para você ele já passou tudo o que você precisaria e aí é hora de mudar. Você sente quando é a hora.

Campeonato Brasileiro de Contrarelogio, 2016

Campeonato Brasileiro de Contrarelogio, 2016

Canela

Para treinar e sair da zona de conforto, você consegue fazer isso sempre sozinha ou precisa estar com mais gente andando ali com você?

Ana

Preciso estar com mais alguém. Eu não sou daquelas pessoas que se estiver sozinha acaba indo super forte. Eu preciso estar com mais gente para me estimular a ir além, principalmente homens. Eu não sou tão competitiva com as mulheres do que eu sou com os homens. Se eu fico sabendo que algum homem falou que eu não ando, aí é que eu vou lá querer dar na cabeça dele. Eu odeio quando eu vejo esses caras que acham que não podem perder para uma menina, porque é aí que ele vai perder mesmo! Com as meninas a minha competição é na corrida. Fora da prova eu incentivo mesmo, ajudo no que posso porque quero ver mais meninas fazendo isso, melhorando e ganhando por aí. Não adianta só eu ser forte. A gente tem que ver todas evoluindo para o ciclismo crescer. Aos poucos a gente vai melhorando juntas.

Canela

Você acha que todo mundo tem essa visão que você tem?

Ana

Acho que não! Hahaha! Às vezes eu vejo no treino, é muito difícil lidar com os egos. Mas eu acho que você tem que se provar na corrida, não no treino. Acho que temos que nos unir. Acho que se tiver união de verdade, as coisas melhoram. Mas se quiser ficar só competindo, aí vai ser mais difícil.

Ana!

Ana!

Canela

O que falaria para uma menina que está começando a treinar, que gosta e vê que tem jeito para competições mas não sabe muito por onde ir?

Ana

Vá para as provas, procure se cercar de pessoas que entendam do ciclismo. Se puder, ter um treinador, mas se ela não tiver meios, conversar com muita gente. Ir atrás do máximo de informação possível, como eu fiz. Eu não tinha como pagar um treinador na época que comecei e não tinha ninguém interessado em mim, claro. Logo no começo, você não é nada. Infelizmente aqui é assim, só vão saber quem você é depois que você começa a ganhar corridas. Mas até lá, é complicado. Se cerque das pessoas que conhecem ciclismo, vá para as competições, não tenha medo de fazer força, de sobrar. Escolha umas competições para ir mal mesmo, para atacar a prova inteira, fazer força, passar do seu limite. Mas aí você escolhe uma para andar bem. Aos poucos você vai indo, melhorando. E se dedicar. Com o tempo você vai ver se é isso que você gosta, se é isso que você quer. Se você gosta de sofrer, esse é o esporte certo! Se não gosta, vai ficar meio difícil, não adianta. Você vai sempre sofrer, mesmo sendo a melhor do mundo!

Sempre admirei muito a Luciene e as Fernandes. Na primeira prova que eu competi, eu estava lá com elas e sobrei, achei que nunca ia conseguir andar como elas. Mas no ano seguinte eu estava lá de novo, e dessa vez pedalando junto com elas. Por isso que eu digo para não se impressionar com esse começo. É assim mesmo, às vezes você fica em último na corrida. Mas se você continua treinando, com o tempo você vai melhorando, ganhando condicionamento. Só não pode ficar fazendo a mesma coisa sempre. Precisa sempre mudar e treinar forte. Cada vez mais do que você está acostumada. Porque você consegue, não é tão difícil. No meu caso, eu tenho certeza de que se eu continuar treinando, eu vou andar na Europa melhor do que fui nesse ano. Talvez não a ponto de ganhar uma prova, porque eu comecei a ir para lá tarde. Mas que eu vou melhorar, isso é certeza. É do nosso corpo isso. Nosso corpo precisa ser exposto ao sofrimento para evoluir. Se você não for exposta a outro ritmo, você não vai evoluir.