Treino

A subida mais difícil

Publicado em 05/05/17

Legendas são desnecessárias.

 

Por Laila Rodrigues

 

Acho que todo mundo que se relaciona com ciclista já teve esse tipo de viagem. Aquela que “era pra ser um fim de semana romântico mas virou um training camp”.

Ok, fui eu que elegi Cunha porque queria saber como seria subir a serra até a divisa com Paraty pela segunda vez. Aí, aproveitado minha sugestão, meu namorado começou com essa história de subir a serra de Paraty para Cunha.

Ainda achando que seria um fim de semana romântico

 

Agora sei que só topei por causa da minha ignorância. A única informação que eu tinha sobre o trajeto era o que fizemos no Women’s100 – e ali fizemos o sentido oposto, descendo a serra. O que já foi terrível. Lembrava das curvas fechadas trepidando, uma parte era um asfalto bem ruim. Inteira fria demais. Dor nos ombros e dedos congelados sem sensibilidade para apertar os freios.

Mas isso foi há quase um ano e desde lá tenho treinado bastante. Queria ver como me saía agora.

No dia marcado, saímos de carro de Cunha, fomos até Paraty, estacionamos na vilinha a poucos km depois de descer a serra. Montamos as bikes e começamos a pedalar.

A serra: aproximadamente 17,5km com 1.500m de altimetria. Meu cérebro não criou nenhuma conexão com essas informações.

 

A serra: 17,5km com 1.500m de altimetria

 

Chegando no pé da serra, o Paulo me deu uma perspectiva: “são tipo 4 Picos do Jaraguá”. Aí, consegui pensar mais ou menos em algo. Eu estava de bom humor, fui subindo e em pouco tempo eu já tinha que fazer tanta força pra vencer a inclinação que comecei a ficar tão ofegante, que pedi para pararmos, porque achei que poderia estar comprometendo meu coração ou rasgando alguma parada lá dentro. O mal-estar foi esquisitíssimo… cólicas fortes, como se fossem câimbras nos órgãos… foi duro demais!

Nunca senti algo próximo disso. Talvez apenas a vontade de vomitar, quando fiz um treino de tiros na ciclovia pela primeira vez com o Fuga Clube de Ciclismo.

Juro, eu estava achando que ia ter uma diarreia com vômito, seguido de infarto (não estou dramatizando, eu estava sentindo isso, mas não falei em voz alta, segurei a onda). Só expressei um semblante tristão. Esperei recuperar os batimentos e segui. Logo o Paulo disse: “Já foram quase 2 Picos.” Meu, a medida era em Picos! A gente tinha pedalado só 5km mas eu fiquei de certa forma aliviada.

Não pensei em voltar em nenhum momento, pensei que meu corpo avisaria (que era o plano B, por isso que deixamos o carro em Paraty, qualquer coisa, desceríamos).

Dureza. Não tem outra palavra. É duro demais como nunca tinha chegado perto.

Não tinha ideia do que era uma inclinação daquela [chegando a 23% em alguns pontos]. Não tinha ideia do que eram 8, 10 inclinações daquela na sequência. Não tinha ideia do que era não ter nada de plano intercalando as subidas. Eu não tinha ideia do que era estar no ápice da força e ter de desviar de limo, buraco ou carro (em dois trechos, só passava um carro por vez). Uma bela duma ignorância necessária mesmo.

Só no asfalto, foram 2 paradas para eu parar de passar mal e 2 para empurrar… sim, não teve jeito. Principalmente porque aquele chão era muito inclinado e, com qualquer obstáculo, uma vez que interrompia, era muito difícil clipar as sapatilhas novamente porque não tinha como dar uma “embaladinha pra frente”. Quase não tinha espaço nem para dar uma embaladinha perpendicular à via! E empurrar foi bem ruim também, digo para o corpo mesmo e para as sapatilhas que escorregavam.

Minha cabeça estava tão ocupada com as demandas do corpo e da física dos objetos e dos planos, que quando chegamos aos bloquetes (meio do caminho!!!) foi a maior magia!!!

Ficou “mais fácil”: vias mais largas, vegetação mais ampla, menos escorregadio.

Achei que era menos inclinado, mas logo as subidas voltaram a aparecer. Aquelas que tapam a visão como um muro, só que torcendo que nem escada caracol. Mas ok, foram menos numerosas. Empurrei de novo quando rolou uma sequência de 3 delas.
A primeira metade tinha sido de passar mal mesmo. Eu não sentia dor nas pernas, eu estava com o corpo zoado. Se ele pudesse falar, diria “Cara, que você tá fazendo comigo?!! Que porra é essa!!!??”. Na segunda metade, meu corpo já tinha começada a identificar o ocorrido: era um pedal sim. rs E as pernas começaram a cansar.

Teve mal-humor? Também teve. Na hora que o Paulo quis parar no meio da descida para tirar foto da vista da praia… ainda estava com medo, ficou engraçado.

 

Ao longo de todo o percurso, o Paulo ia me dando umas dicas muito pontuais e eu fui recrutando, além do máximo de músculos possíveis para distribuir a força, também algumas técnicas que aprendi nos treinos do Fuga Clube de Ciclismo. Eu usei tudo que eu sabia!!

Até então eu estava tendo que coordenar tudo ao mesmo tempo na potência máxima: controlar corpo, respirar fundo, força e alinhamento nas pernas, braços, abdômen, atenção, calcular a curva, identificar obstáculos, cuidar de sinalizar para os carros, tudo num espaço apertado.

No terço final, rolou de fazer o que eu sabia até então numa subida dura: olhar concentrada para o chão à frente e ir. Concentra e vai sem previsão de terminar. Foi assim que quase não vi chegando no topo da divisa com Cunha… ouvi umas vozes, bateu um sol, a temperatura já estava agradável. Que alegria!!! Maior satisfação!!

Bateu uma euforia que eu me senti bem fisicamente também.

Uma foto do dia anterior para mostrar que fui feliz pedalando e que tenho pernas definidas.

 

Aí eu já sabia dizer o que era pior: descer ou subir a serra de Paraty!

Nos preparamos para a volta: coletinhos a postos e pneus um pouco esvaziados (isso fez muita diferença na trepidação da descida, MUITA!).

Refiz meu bike-fit da semana anterior. E muita coisa mudou na bike. Estabilizou consideravelmente meus joelhos e quadril! E junto com o fato de ajustar os espaços dos braços e pernas, eu fiquei com mais força na subida, louco!

Mas ao mesmo tempo me deixou numa posição mais agressiva, o guidão estava bem mais baixo, então deu um medo de capotar pra frente. E olha que geralmente eu não tenho nenhum, mas travei logo no começo de medo e parei pra pensar: “bunda bem pra trás, peso pra baixo, dosando freios e tomando cuidado para não travá-los e escorregar… vou devagarinho onde estiver muito inclinado, ok”.

Ou seja, agora acho que preciso de mais técnica! hehe

Quando terminamos a serra, e eu deslizei no plano, a sensação foi de que minha bike era elétrica! Quanta facilidade!!!

Para o tamanho da encrenca, terminei muito bem. Aprendi tanta coisa sobre pedalar! Foi uma aventura didática mesmo.

Enquanto subia, nas paradinhas eu fui fixando os meus aprendizados:

>> Não subestime uma subida descrita como BEM DURA (pense que você pode não ter ideia do que isso significa)

>> Não subestime a água (Paulo insistiu para que eu levasse 2 caramanholas, embora tivesse dito que não precisava porque lá era frio). A gente fica muito ofegante, seca muito a boca e suamos demais da conta!!!

>> Quer fazer minhoquinha pra subir, não feche muito na curva porque é muita força e pouca velocidade para mudar o sentido (quase fez o pneu derrapar e dar uma empinadinha)

>> Murche um pouco os pneus na descida de bloquetes, absorve a trepidação, aliviando um pouco ombros, costas e braços

>> Pense ou peça ajuda sobre sua relação das marchas para determinado percurso de subida muito específica

>> Quando tiver quase não dando, peça para @ namorad@, amig@ ao lado gritar palavras de encorajamento

>> Treine: em cima da bike e fora dela se possível, com treinos de força e alongamentos. Mantenha constância (só a frequência de treinos me trouxe esses ganhos)

>> E uma importantíssima: tope um desafio quando estiver num período hormonal favorável (adapte seu esforço partindo dele). Simplesmente não teria conseguido nem 5km se estivesse com a força que tenho geralmente durante a tpm.

Pedais como esse parecem ser meio inúteis, se pensar por um lado… Mas, me vem na cabeça um lance das aulas de Yoga: “tapas”.  Aquele momento que você se vence desprendendo um monte de energia.

 

E depois disso, você ressignifica suas próprias dificuldades. O Matão perde o respeito, o Pico termina rapidinho, Cunha-Paraty é um resort!

Interfere até na resposta para suas amigas de pedal quando elas perguntam “Será que eu aguento?”. Com treino frequente? Aguentamos bem. Mas em quê condição chegaremos ao final? Aí é aprendizado e mais treino.

Mas felizonas!!! Certeza!

Veja a rota no strava da Laila.